Ou O voto café-com-leite
Aí rolou aquela conversa de eleições 2010. E como se o voto não fosse secreto, decidimos por às claras quem somos. No melhor estilo “você é em quem você vota” usamos um aniversário infantil – mas a mesa era a dos adultos, er – e contamos tudo.
Apesar de não termos todos os candidatos em vista, resolvemos partir para os clássicos: substitutos do governo atual e oposição, ainda que alguns tenham se pronunciado a favor de prováveis nomes que chegam bem perto daquilo que seria o prêmio de ator/atriz coadjuvante num festival de cinema independente.
A lógica na cabeça do eleitor pode ser uma matriz no formato normal da teoria dos jogos, então “meu candidato nunca ganha”, porém a maioria não surpreende por facultar a própria vontade ao voto limpo e simples – indiferente à manipulativas pesquisas de opinião. No entanto, aquele primeiro tipo de voto, que apelidei mimosamente de “café-com-leite”, é um importantíssimo fator político para que o candidato eleito não seja favorecido por um ar de unanimidade, o que distanciaria a jogatina eleitoral da definição-mor de democracia. A fantasia toda não pode ter ares de golpe. Deputados e vereadores são aclamados por conta de votos de gente que a gente não conhece, é duma impressionante razoabilidade. Porém, senadores, prefeitos, governadores e presidentes sofrem ou melhor gozam um processo diferente e mais sofisticado, a elite da camada a ser eleita conta com menos personagens, e aí são bem vindos os jogos, as campanhas cinematográficas, a baixaria televisiva – necessária, o suporte de gente famosa e carismática, os escorregões e as oportunidades heroísticas de última hora.
Se você leu até aqui, não ceda à tentação de ficar revoltado porque não é essa a intenção, longe disso. O sentimentalismo vulgar do brasileiro, ou o toque de humanidade?, é o que arrasa as nossas chances de sermos mais originais num período tão fecundo e faz com que a nossa demonstração patriótica às vezes pareça um espetáculo chinfrim. Basta entender que queira ou não, o Brasil eleitoral é uma caçada vigorosa que nos expõe ao que temos de mais talentoso. Mais do que o futebol, e sabe por quê? Porque é uma das poucas áreas, para não dizer a única, em que nossos profissionais, os políticos, são tão filha-da-putamente bons que dificilmente será preciso um olheiro estrangeiro comprá-los ainda moleques e vacilantes em timecos de segunda para que eles possam provar seu talento. Por isso a eleição, mais do que a Copa do Mundo, é evento mais importante do ano. E eu faço questão de votar – o voto café com leite.

Sarney enumerando as qualidade de se ter um bigode da sorte: "Eu e Nenê (Constantino) usamos".
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