Hoje é um dia de gala para arte, pois se celebram 125 anos da existência do pintor, escultor, desenhista, escritor Pablo Ruiz Picasso. É muito provável que você tenha na cozinha, na sala, no quarto ou mesmo no banheiro, uma rúbrica de qualquer cuspe que Picasso tenha dado. Eu tenho! Isso me faz pensar no que torna a marca de um pintor tão popular a ponto do mesmo quadro leiloado por zeros a perder de vista a um bilhardário de Wall Street também estar presente em milhares de casas, seja de rico ou pobre, na forma de réplicas, reproduções computadorizadas, fotocópias etc. Ok, são inpensáveis as influências e o legado artístico do espanhol. Agora, o talento e a assinatura de um artista se calcula mais pelo que fez, pelo que preconizou ou pelo que influenciou?
Picasso, sem dúvida, viveu o seu presente. Alguns o tomam como avant-garde. Problema disso é: como enxergar numa criação humana algo que não está em ligação vitalícia com suas tradições e vivências, quero dizer, com o presente? Se o que ele fez teve por conseqüência a gestação de uma nova escola artística, foi por ter produzido, com a intuição necessária, algo diferente do passado. Algo diferente do passado não quer dizer necessariamente a arte do futuro. Ninguém vive para o futuro. Os que o consideram vanguarda são pessoas que analisam a contribuição artística do pintor a posteriori, ou seja, no momento de consolidação da escola, da capacidade de influência e incentivo criativo a outros artistas, no tempo em que a arte está num raio tal que pode até ser considerada ecumênica. Alguns contemporâneos de Picasso não o entenderam, não o aceitaram. Não porque fossem incapazes ou alienados, e sim porque o novo, extremamente novo, tende ao fracasso se não atender a certos cânones. O que aconteceu com Picasso é que ele estava no tempo certo, no espaço certo. Os escombros das duas guerras mundiais estavam por toda parte. A sugestão histórica da reconstrução, não só concreta, civil e climática da Europa se estendeu aos costumes. A essa revolução se deu o nome de Modernismo. A alta patente intelectual européia estava encontrando seus meios para não dar permanência a lembranças do século XIX, ao imperialismo, ao etnocentrismo. Soma-se a isso um certo esgotamento financeiro para o patrocínio de pressupostos artísticos obedientes ao bom comportamento, diria vitoriano, dos apadrinhados por mecenato. Livres, bombardeados, os artistas tinham sangue de sobra para gastar em telas que matizassem o sofrimento da humanidade. Picasso e seus cubos transformaram, metamorfosearam feições humanas em traços feios, clamantes, desesperados. Guernica, sua tela mais famosa, escancara as cenas de um bombardeio infeliz ocorrido na ribalta da Guerra Civil Espanhola. Ao ser perguntado pela censura alemã sobre o quadro: “Você quem fez isso?”, respondeu “Não, vocês que fizeram”, exibindo com clareza seu posicionamento frente à destruição. Parece, então, que a fórmula é simples: usar o cotidiano para transpor os sentimentos contemporâneos em letras, imagens e sons. É, eu digo que é. Faça do jeito como souber. Não se preocupe com reconhecimento. Ninguém pode prevê-lo porque ninguém vive para o futuro.
“Não há, na arte, nem passado nem futuro. A arte que não estiver no presente jamais será arte.” (Pablo Picasso)
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