Dogs are everywhere

Sra. Glass

“Os Glasses viviam num edifício de apartamentos que, embora antigo, conservava positivamente uma dignidade de bom tom; estava situado numa das ruas Setenta e tantos da Zona Leste, onde possivelmente dois terços das inquilinas mais maduras possuiam casacos de peles e, ao sair do edifícil numa ensolarada manhã de qualquer dia da semana, era mais certo que meia hora depois poderiam ser vistas entrando ou saindo de um dos elevadores do Lord & Taylor, do Saks ou do Bonwit Teller’s. Nesse ambiente tipicamente manhattanesco, a Sra. Glass (de um ponto de vista inegavelmente libertino) era uma anomalia quase reconfortante. Primeiro, tinha o ar de quem nunca, nunca pusera os pés fora do seu apartamento, mas, se o fizesse alguma vez, poria nos ombros um xale preto e sairia no rumo da O’Connell Street para reclamar o corpo de um dos seus filhos meio-judeus, meio-irlandeses, que, por algum erro administrativo, acabara de ser abatido a tiros pelos Black and Tans

(Salinger, J. D. FRANNY AND ZOOEY. p. 61)

Toda mãe é, foi ou será um pouco como a Sra. Glass. Não pude deixar de me empolgar (é, eu disse empolgar) com essa descrição.

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125 anos de Pablo Picasso

Hoje é um dia de gala para arte, pois se celebram 125 anos da existência do pintor, escultor, desenhista, escritor Pablo Ruiz Picasso. É muito provável que você tenha na cozinha, na sala, no quarto ou mesmo no banheiro, uma rúbrica de qualquer cuspe que Picasso tenha dado. Eu tenho! Isso me faz pensar no que torna a marca de um pintor tão popular a ponto do mesmo quadro leiloado por zeros a perder de vista a um bilhardário de Wall Street também estar presente em milhares de casas, seja de rico ou pobre, na forma de réplicas, reproduções computadorizadas, fotocópias etc. Ok, são inpensáveis as influências e o legado artístico do espanhol. Agora, o talento e a assinatura de um artista se calcula mais pelo que fez, pelo que preconizou ou pelo que influenciou?

Picasso, sem dúvida, viveu o seu presente. Alguns o tomam como avant-garde. Problema disso é: como enxergar numa criação humana algo que não está em ligação vitalícia com suas tradições e vivências, quero dizer, com o presente? Se o que ele fez teve por conseqüência a gestação de uma nova escola artística, foi por ter produzido, com a intuição necessária, algo diferente do passado. Algo diferente do passado não quer dizer necessariamente a arte do futuro. Ninguém vive para o futuro. Os que o consideram vanguarda são pessoas que analisam a contribuição artística do pintor a posteriori, ou seja, no momento de consolidação da escola, da capacidade de influência e incentivo criativo a outros artistas, no tempo em que a arte está num raio tal que pode até ser considerada ecumênica. Alguns contemporâneos de Picasso não o entenderam, não o aceitaram. Não porque fossem incapazes ou alienados, e sim porque o novo, extremamente novo, tende ao fracasso se não atender a certos cânones. O que aconteceu com Picasso é que ele estava no tempo certo, no espaço certo. Os escombros das duas guerras mundiais estavam por toda parte. A sugestão histórica da reconstrução, não só concreta, civil e climática da Europa se estendeu aos costumes. A essa revolução se deu o nome de Modernismo. A alta patente intelectual européia estava encontrando seus meios para não dar permanência a lembranças do século XIX, ao imperialismo, ao etnocentrismo. Soma-se a isso um certo esgotamento financeiro para o patrocínio de pressupostos artísticos obedientes ao bom comportamento, diria vitoriano, dos apadrinhados por mecenato. Livres, bombardeados, os artistas tinham sangue de sobra para gastar em telas que matizassem o sofrimento da humanidade. Picasso e seus cubos transformaram, metamorfosearam feições humanas em traços feios, clamantes, desesperados. Guernica, sua tela mais famosa, escancara as cenas de um bombardeio infeliz ocorrido na ribalta da Guerra Civil Espanhola. Ao ser perguntado pela censura alemã sobre o quadro: “Você quem fez isso?”, respondeu “Não, vocês que fizeram”, exibindo com clareza seu posicionamento frente à destruição. Parece, então, que a fórmula é simples: usar o cotidiano para transpor os sentimentos contemporâneos em letras, imagens e sons. É, eu digo que é. Faça do jeito como souber. Não se preocupe com reconhecimento. Ninguém pode prevê-lo porque ninguém vive para o futuro.

“Não há, na arte, nem passado nem futuro. A arte que não estiver no presente jamais será arte.” (Pablo Picasso)

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An horror soundtrack

Não há porque o belo ser necessariamente antônimo ao horroso quando este possui uma beleza própria; uma beleza exótica. O horror pode ser tão inspirador quanto o melanólico. Mas… de onde vem a sensação de horror? Só dele, do desconhecido. O inexplorado acaba provocanado sensações de mistério, escuridão ou monstruosidade até quando não é essa a intenção. Eis que algum dia eu me deparo com o horroroso e descubro que gosto dele. Gosto de músicas horrorosas, que assustam, que mantem o suspense do primeiro ao último compasso. Eu poderia lembrar aqui a Quinta Sinfonia de Beethoven. Todos a conhecem, ou então a mais desconhecida The Fear do Pulp, que fala exatamente disso (an horror soundtrack)…. porém tem outra coisa tão horrorosa quanto linda tocando no meu quarto. Um pai diz ao filho:


Baby your da-da loves you
And I’m always gonna be here for you
No matter what happened
You’re all I got in this world
I’d never give you up for nothin’
Nobody in this world is ever gonna keep you from me
I love you

C’mon Hai-Hai, we goin to the beach
Grab a couple of toys and let da-da strap you in the car seat
Where’s mama? She’s takin a little nap in the trunkOh that smell — da-da musta runned over a skunk
Now I know what you’re thinkin – it’s kind of late to go swimmin
But you know your mama, she’s one of those type of women
That do crazy things, and if she don’t get her way, she’ll throw a fit
Don’t play with da-da’s toy knife, honey, let go of it
And don’t look so upset, why you actin bashful?
Don’t you wanna help da-da build a sand castle?
And mama said she wants to show you how far she can float
Don’t worry about that little boo-boo on her throat
It’s just a little scratch – it don’t hurther was eatin dinner while you were sweepin and spilled ketchup on her shirt
Mama’s messy isn’t she? We’ll let her wash off in the water
Me and you can pway by ourselves, can’t we?

Just the two of us
Just the two of us
Just the two of us

See honey — there’s a place called heaven and a place called hell
There’s a place called prison and a place called jail
And da-da’s probably on his way to all of em except one
Cause mama’s got a new husband and a stepson
And you don’t want a brother do ya?
Maybe when you’re old enough to understand a little better I’ll explain it to ya
But for now we’ll just say mama was real real bad
She was bein mean to dad and made him real real mad
But I still feel sad that I put her on time-out
Sit back in your chair honey, quit tryin to climb out
I told you it’s okay
HaiHai wanna ba-ba take a night-night? Nan-a-boo, goo-goo ga-ga?
Her make goo-goo ca-ca? Da-da change your dia-dee
Clean the baby up so her can take a nighty-nighty
Your dad’ll wake her up as soon as we get to the water
Ninety-seven Bonnie and Clyde, me and my daughter

Me and my daughter
Me and my daughter
Just the two of us
Just the two of us
Just the two of us

Wake up sweepy head we’re here
Before we pway we’re gonna take mama for a wittle walk along the pier
Baby, don’t cry honey, don’t get the wrong idea
Mama’s too sweepy to hear you screamin in her ear
That’s why you can’t get her to wake, but don’t worry
Da-da made a nice bed for mommy at the bottom of the lake
Here, you wanna help da-da tie a rope around this rock?
We’ll tie it to her footsie then we’ll roll her off the dock
Ready now, here we go, on the count of free
One.. two.. free.. oh-weeeeeee
There goes mama, splashin in the water
No more fightin with dad, no more restraining order
No more step-da-da, no more brother
Blow her kisses bye bye, tell mommy you love her
Now we’ll go play in the sand, build a castle and junk

But first, just help dad with two more things out the trunk

Just — the two – of us

‘97 Bonnie and Clyde – Tori Amos

:~)

Obs.: Não estou dando idéias, tampouco fazendo ameaças. hehe

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H. L. Mencken today and forever.

“O homem médio” (1922)

Costuma-se jogar na cara dos marxistas, com a sua concepção materialista da História, que eles subestimam certas qualidades espirituais do homem que não dependem de quanto ele ganhe ou deixe de ganhar. O argumento é de que essas qualidades colorem as aspirações e atividades dos homem civilizado tanto quanto são coloridas por sua condição material, tornando assim impossivel simplesmente reduzir o homem a uma máquina econômica. Como exemplos, os antimarxistas citam o patriotismo, a piedade, o senso estético e a vontade de conhecer Deus. Infelizmente, são exemplos mal escolhidos. Milhões de homens não ligam para o patriotismo, a piedade, ou o senso estético, e não tem o mínimo interesse em conhecer Deus. Por que os antimarxistas não citam uma qualidade espiritual que seja verdadeiramente universal? Pois aqui vai uma. Refiro-me a covardia. De uma forma ou de outra, ela é visível em todo ser humano; serve também pra separá-lo de todos os outros animais superiores. A covardia, acredito, está na base de todo sistema de castas e na formação de todas as sociedades organizadas, inclusive as mais democráticas. Para escapar de ir à guerra ele próprio, o camponês dava ade mão beijada certos privilégios aos guerreiros – destes privilégios brotou toda a estrutura da civilização. Vamos recuar ainda mais no tempo. Foi a propriedade que levantou a lebre de que uns poucos homens relativamente corajosos foram capazes de acumular mais posses do que hordas de covardes – e, como se fosse pouco, de mantê-las depois de acumuladas. (Mencken)
Diretamente do arquivo Natalia Struggle for life. Sabem bem que Natalia defende uma volta às arvores. À copa delas. Descer pode ter sido um erro. Viveríamos em comunas. Até nascer um puto ambicioso e começar tudo de novo…

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