Dogs are everywhere

Sucesso 2

Qual é o maior problema em cometer erros, falhar, fracassar, ir mal, muito mal? Se ninguém visse o erro, ele poderia ter um efeito colateral muito menor, muito menos arrasador.  Mas não. O fracasso existe porque existe sucesso. Um depende do outro para existir, malignamente ou benignamente. Do mesmo jeito, ter sucesso sem platéia não pode ser considerado um sucesso social, talvez apenas pessoal, não é? Read the rest of this entry »

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Processos rotineiros

ou O Acidente Nacional

Num dia, espaço de tempo normalmente constituído de vinte e quatro horas em que a Terra leva para girar em torno do próprio eixo, milhões de pessoas, cuja unidade PESSOA é um ser, indivíduo a que se atribuem direitos e obrigações, tomam seus rumos a partir de sistemas de transporte coletivos chamados ônibus. Um ônibus normalmente possui um motorista dotado de capacidade específica atestada em carteira e um cobrador de bilhetes, situados em partes estratégicas do veículo, aguarando os usuários-PESSOA. Que ocuparão assentos e vagas para o transporte em PÉ, apoiados em canos ou esmagados entre os seus iguais. O esquema acima se repete em várias cidades do Brasil, uma república federativa de estupendos 26 estados e um Distrito Federal,  183.987.291 habitantes, área de 8.514.876,599 km², equivalente a 47% do território sul-americano. São 7400km de costa para o Oceano Atlântico e fronteira com quase todos os países da América do Sul, exceto Equador e Chile. 

Diante de toda essa megalia nacional, mais uma vez o ônibus, parte integrante do sistema de transporte coletivo, conduz pessoas (sic) em processos rotineiros como: espera dilatada em muitos minutos, concorrência na entrada, pagamento do bilhete, passagem na catraca – a flor giratória da civilização ocidental depois da metralhadora e do helicóptero – , o arranque inicial, o deus-nos-acuda, o trajeto e a descida. Nem todos saem satisfeitos. Melhor dizer, nem todos saem insatisfeitos.

As empresas de transporte nem precisam gastar um centavo com publicidade Traga você e a sua família. A clientela é garantida. Eu mesma faço parte dessa clientela. E hoje foi dia de atravessar a cidade em que moro abusando dos processos rotineiros. Mal eu sabia, mas algo sairia do programado.

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“Tudo o que é sólido desmancha no ar”

Quando Karl Marx disse que tudo o que é sólido desmancha no ar não se referia a aviões. Foi a metáfora mais feliz para definir ideologias, formas de governos e modos de produção que nasceram, vingaram e ruíram, como num ciclo de vida e morte quase natural. Imaginava que o capitalismo teria o mesmo fim, não derrotado por outro modelo – um antagonista econômico, mas findado por ele próprio.

Há subsídios, atualmente, indicando que o capitalismo tem forças não só para derrotar a si mesmo, como ao planeta inteiro. Como isso vai se suceder não tenho a mínima idéia, pode ser que o desmanche venha muito mais tarde do que se pensa. A minha falta de convicção na aposta marxista ainda para o século XXI me impede de fincar conjeturas às cegas. Facilitando: não tem fome na África, aquecimento global, cataclismas que me deixem minimamente desconfiada do fim do time is money social club. A moda, por exemplo, está lançando maneiras politicamente corretas de consumo, que não passam de desculpas para o consumo em si – é o caso daquele colar de fiapo de algodão biodegradável fabricado pelas rendeiras do Suriname que custa uma fortuna ou da bolsa de couro de milho ambientalmente certificado por apenas trinta e quatro instituições de proteção ao frio polar – tudo muito chique.

E a vanguarda financeira? A faixa etária dos 20 aos 45 anos empolada de globalização, tentando arrumar a melhor maneira possível de investir em bens líquidos, voláteis, brutos, móveis, imóveis, um vocabulário parecido com o daquelas aulas de química onde as substâncias sumiam e as moléculas pediam o máximo de abstração possível para serem localizadas. Um outro ponto muito forte da globalização, benéfico no microaspecto e duvidoso no macroaspecto, é a migração. É bem certo que as migrações sempre fizeram parte da História, lembro que diáspora é a principal prática hebraica quando as coisas apertaram em qualquer século, em qualquer lugar. Só que agora é assim: qualquer indivíduo pode pretender – o que não quer dizer realizar, ou realizar, sim, mas pela metade – no espaço de uma única vida morar em Nova Iorque, Londres, Tóquio, Berlim, Paris, Montreal, Amsterdã…

A velocidade com que se come distâncias seja de avião, ou por fibra ótica, é considerado um ganho individual e coletivo muito grande, mas até que ponto a ampliação das perspectivas e das necessidades, pressionada irresistivelmente pela propaganda, é uma motivação adequada para se levar a vida ou para se tomar importantes decisões políticas? Os chineses que o digam – a economia deles precisa esquentar também por mecanismo interno de consumo, o que para eles é uma novidade, uma sociedade que há apenas vinte anos atrás só era permitido ter o que comer, vestir e parcos meios de produção artesanal. Desejar o básico fica cada vez mais complicado, pois o básico anda com fronteiras bem movediças. E ainda que não pareça, não estou ansiosa pelo final de tudo isso, como quem esfrega as mãos, feito a Cruela Cruel dos desenhos Disney. É que ao lembrar das palavras do velho Marx, eu percebo que o que tem se desmanchado tristemente no ar não é o fator mais equivocado dentro da equação capitalista; deveria ser, e não é, outro.       

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Requiém para um sonho

Lucas assistiu a uma ópera chamada Mozart e Salieri e comenta. Leiam.

Eu, por minha vez, tinha imaginado uma versão do roteiro do Milos Forman em que Mozart troca de lugar com Salieri por um dia. Mesmo consciente de que ele é Mozart e Salieri está no seu corpo, Mozart ao tentar compor suas peças sofre do mesmo bloqueio que Salieri, este último com a visão até aquele momento turvada pela inveja. Mozart que nunca questionara o próprio talento passa a invejar o regozijante Salieri que aproveita o “freaky friday” do século XVIII para compor uma das obras mais famosas de Mozart, a Flauta Mágica.

Mozart (no corpo de Salieri), que não sabia de nada, nem mesmo da Flauta Mágica, procura a maçonaria, da qual era membro desde a morte do seu pai. A loja maçônica austríaca lhe recusa a cura alquímica, no entanto dá-lhe uma chance de provar que é o real Mozart. Este deve compor uma obra que eternize os signos maçônicos de forma meio velada, demonstrando, claro, o estilo e a qualidade do verdadeiro Mozart. Louco por uma solução, cansado de ter que cumprir os compromissos sexuais com a amante ridícula de Salieri, em uma madrugada atribulada, compõe a … Flauta Mágica! Cansado, vai dormir e deixa a luz acesa. Salieri (no corpo de Mozart), à espreita, rouba-lhe os originais e compara com a SUA. Eram idênticas. “Como??? Como ele conseguiu?? Ele está com o meu manejo, o inferior, o medíocre!” O enlouquecido Salieri sai pela madrugada e encontra um pântano onde ateia fogo nas mãos (que são as de Mozart). Eis que o feitiço se desfaz.

Mozart acorda aturdido e tostado no pântano. Salieri acorda em cima de papeis em branco, na saleta de composição. Mozart vai, de maneira trôpega, até Vienna. Descansa. À noite vai procurar o outro a fim de esclarecer a questão. Mas Salieri, paranóico de todo, já o esperava com uma arma. Os ânimos esquentam no momento em que Mozart passa da porta e encontra Salieri tomando leite. Mozart “Por que o leite? Você não vai se matar?”. Salieri “Não, eu só estava te esperando pra te matar”. Mozart “Então perdi a viagem”. Salieri “Como assim?”. Mozart “É que se você quer e pode, como estou vendo, acabar comigo, eu não precisarei mais de explicações sobre o dia que passou”. Salieri, ficando preocupado, “Você é louco? Cadê o teu medo?”. Mozart “Enquanto você queimava minhas mãos lá no pântano, e eu estava aqui ocupado em escrever uma peça para obter a cura de ’ser você’ eu cheguei a uma conclusão”. Salieri ansioso “Qual?”. Mozart “Se a cura da maçonaria desse errado, eu iria me matar. Ou melhor, te matar. Porque eu não agüentava ser você, é horrível viver as conseqüências da sua falta de paz de espírito”. Salieri se sente redimido. Mozart senta e espera. Salieri, já totalmente tantã, pega o violino e começa a tocar um concerto de Mozart. Este, entediado, aponta para a arma. O obediente Salieri pára o concerto de imediato e se encaminha para a mesinha onde a arma se encontrava largada. Dá uma gargalhada nervosa e, com os olhos cheios de fúria, a aponta para Mozart. Uma pausa. Duas pausas. E o tiro.

Muitos anos depois, um digníssimo réquiem é entoado para o funeral de Mozart. Na lápide, um epitáfio simples e direto:

“Aquela culpa, eu não tive”.

A clássica risada.

Fim.

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Antropofagia, preguiça e Chopin

Texto retirado do meu arquivo C:\natalia\struggle_ for_ life

Foi o primeiro post do extinto outrasmofas.blogspot.com.

Pater Patriae

“A escravidão, a poligamia e o despotismo resultam, na sua visão [européia], da geral apatia dos habitantes dos climas quentes, em que o calor traria o ‘relaxamento’ das fibras nervosas. Com isso, o indivíduo perderia toda a força e a vitalidade, seu espírito ficaria abatido, entregue à preguiça e à ausência de curiosidade” (Roberto Ventura. Estilo Tropical. São Paulo: Companhia das Letras, 1991)

Eu não sei, juro que não sei, porque essas idéias abjetas foram por água abaixo. Os antropólogos atuais, sempre partidários da valorização humana, querem nos amputar o direito de nos sentirmos inferiores intelectualmente. Ora, os iluministas cantaram a pedra muito antes e disseram sinceramente que estamos presos num “vício radical” que emperra o progresso (a não ser o demográfico). Isso não é de todo o mal. Se estamos escusados até biologicamente (Ver texto acima), pra que se desesperar e tentar mostrar serviço pros outros? Se por um lado nossa mediocridade mental faz a nossa fama, não podemos negar que gozamos da felicidade natural, inocente e porque não débil dos habitantes de clima fértil. Nossos bosques têm mais vida e nossas vidas mais amores… Na ausência de curiosidade sobre o que há de verdade nesses bosques, agimos em total concordância com primatas menores, só que cheios de sentimentos, os tais amores.

Muitas das nossas atitudes mais banais não foram compreendidas por muitos europeus que tiveram a audácia de vir estudar o que era o Brasil. Fomos classificados como cruéis por Fernão Cardim, um abelhudo do século XVI, que escreveu depois de observar o cotidiano aimoré: “quando tomam alguns contrários cortam lhe a carne com uma cana de que fazem as flechas, e os esfolam que não lhe deixam mais que ossos e tripas. Se tomam alguma criança e os perseguem, para que lha não tomem viva lhe dão com a cabeça um pau; desentranham as mulheres prenhes para lhes comerem os filhos assados”. Isso é família, pôrra. Alguém tinha que dizer para ele que somos bons selvagens, não carniceiros irascíveis. Agora vem uma pergunta pretensamente sabichona: como chegamos dos ossos e tripas ao Machado de Assis? Simples: momentos raros de insistência ultra-teimosa e besta. Ela pode nos arrastar ou para a eleição de um Efelentífimo Presidente ou para o germinal de um Memorial de Aires. Oito ou oitenta. Entendeu? Não?
Então toma:
“PIMENTA BUENO: O Brasil é um terreno estéril! Aqui não brotam idéias! O Brasil murcha a imaginação, resseca o estímulo intelectual, definha o raciocínio! O país inteiro vale menos do que o Estudo número 3, opus 10, de Chopin!” (Diogo Mainardi. Contra o Brasil.São Paulo: Companhia das Letras, 1998)

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