Dogs are everywhere

Sou um cara ciumento

Sou um cara ciumento. Não tem jeito. Já nasci com o gene do ciúme. Meu pai, minha mãe, o cachorro, tudo ciumento. Aprendi a escrever com seis anos, logo comecei a etiquetar tudo o que era meu. Porra, se é meu, vem outro pivete e bota a mão? Não! Biscoito, chaveiro, bola, cachorro, quarto, mãe. A mãe é minha; por sinal, ciúme latente. Do meu pai o ciúme é potencial – ainda está se desenvolvendo à medida que aquele secretário mané dele parece merecedor em substituí-lo na empresa.

Só que eu cresci. Tenho pêlo na cara. Como homem que sou, abandonei as etiquetas. Eu tenho trancas, são mais seguras. Gosto de trancar tudo. O poder de prender algo com o qual só eu tenho o segredo me ilumina. Porta, portão, grade, arame, chave, cofre. Já estava na hora de comprar os cadeados e …. (raciocício entrecortado por passagem de mulher bonita e perfumada).

- Valquíria!
- Como andas?
- Ah, estou pendurado em duas disciplinas. Você teria tempo livre para me dar uma ajuda?
- Como é que o sujeito mais inteligente dessa universidade fica pendurado em duas disciplinas?
-To meio burro então na matéria de elaborar desculpas esfarrapadas.

Assim começou o meu namoro. Valquíria, caloura, vinte anos, linda. Só em pensar que os outros também suspiravam por essa sequência de características, eu ficava doente. Encontrar com Valquíria introjetava na minha pobre cabeça uma dose dupla de nervosismo. O primeiro era a inegável ansiedade em ver minha namorada, que, vou repetir, era minha mesmo. O segundo era um puta medo de vê-la com outro no lugar. Read the rest of this entry »

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Lembrete

Não fazer registros das paixões pode se converter em economia do trabalho de tocar tudo da janela depois que a coisa desanda. Mas há quem não se importe de colecionar lembranças dos relacionamentos que foram bons e acabaram por mistérios da natureza, fúria do destino ou coisa que valha.

Assim, Carlos armazena com muito mimo e orgulho os resquícios das experiências amorosas passadas.  A organização é exemplar. Tem uma caixa etiquetada para cada ex-namorada. Chegou a fazer um inventário em banco de dados para não se perder. A ordem das moças, ou melhor, das caixas é meramente alfabética, segundo ele para facilitar a busca, e os conteúdos são parecidos. Cartas, retratos, notas fiscais, embalagens usadas, registros das contas de telefone, de cartão de crédito, gráficos com horários de entradas e saídas do apartamento, fotografias-flagrantes, fiapos de cabelo, retalhos de roupas, restos de unhas, band-aids, esparadrapos, cacos de vidro e o seu preferido, uma ameaça anônima com letras cortadas de jornal – que, desconfia ele ser da última e melhor de todas.

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Cores

O AMARELO, espevitado como sempre, convida o AZUL para ir a um bar VERMELHO . O AZUL raciocina um pouco, mas acaba aceitando. O AZUL, ao perceber que está saindo da MONOTONIA ordinária de todos os dias,  propõe ao AMARELO beberem durante a tarde inteira. Quando deixam o bar VERMELHO, estão LARANJA e ROXO. É quando se dão conta: é… perdemos nosso VERDE.

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Borboletas e Marimbondos

As borboletas são alegres, coloridas e no mais das vezes simbolizam leveza, encanto e liberdade. Certa vez, um bando delas, acuado pelo medo da precipitação, passa a procurar abrigo. Cada uma a seu modo.

A primeira encontrou um sapo que lhe ofereceu abrigo dentro da bocarra. Esta aceitou. Logo depois morreu.

A segunda encontrou um pássaro que lhe ofereceu aconchego dentro do bico. Esta hesitou, mas aceitou. Logo depois também morreu.

A terceira, desconhecedora da sorte de suas irmãs, encontrou uma bananeira. Um marimbondo lhe ofereceu casório. Esta aceitou. E logo depois quis morrer.

A quarta arrumou um emprego dentro dum formigueiro. Ai, me dá fadiga terminar este parágrafo.

As borboletas são alegres, coloridas e no mais das vezes simbolizam leveza, encanto e liberdade. Certa vez, um bando delas, acuado pelo medo da precipitação, passou a procurar abrigo. Quando o sol reapareceu no quintal, nenhuma voltou ao jardim. E você, já se perguntou onde as borboletas do seu quintal se protegem da chuva?

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Três Pontos para Três Contos

Tava sem nada pra fazer, eu os escrevi ontem a noite.

Quer agora

Passa os dias remoendo a sensação de que falta algo na vida. Neste instante, ela repuxa as mãos e esfrega os olhos. Uma necessidade que urge, não é sal no arroz, não é sorriso nos filhos, não é afetividade dos amigos, não é carinho do marido. Não é educação, música, perfume ou cor. Os dentes, tem a todos eles.

Não é dinheiro no banco, não é previdência, não é nada que possa ser comprado à vista, à prazo ou no consórcio. Sequer é caro. É algo que inveja em outros, inveja em segredo – segredo que o âmago não divide com ela própria – pois esse desejo latente não tem direção aparente. Não é emprego, nem saúde. Tampouco saúde para trabalhar. Esforçada, acorda assistida por afazeres, dorme pensando neles. O que falta, afinal? Ela se pergunta. Pergunta agora. Quer agora. É como aquele maldito último ítem do supermercado que escapa à memória.

Começa a se desesperar, pois pensa que vai morrer sem conseguir desfrutar desse misterioso componente que lhe figura vazio na imaginação. Tem ido ao terapeuta, ao casamento da filha, à casa do filho, ao encontro do marido, da prima, dos empregados. Sua vida transborda de gente. Mesmo assim, não acha, não vê. Perscruta, persegue, nervosa, corta dos dedos na louça que arrebenta na pia. Corta os cabelos.

Está bem? Está bem?

O que está acontecendo com você?

Precisamos ter uma corversa urgente.

Agenda, secretária eletrônica, celular, computador, todos os eletrodomésticos estão preocupados com ela. Anda de um lado pro outro, telefone numa mão, a cintura na outra. Berra, chora. Pede conselho, colo, cigarro.

É algum segredo do passado?

Talvez seja. Não lembra há quanto tempo sente isso. É anseio antigo, desejo que cresceu como um prédio paralelo à linha da própria vida. Está prestes a implodir. Não sabe mais a quem solicitar. À Deus? Vai a Igreja, crê na onisciência. Crê na luz. A Igreja está lotada de anseios antigos, não sobra lugar para sentar.

Volta para casa. Está na hora do terapeuta.

Quer carona?

Sim, está chovendo.

Lembrei que não abasteci o carro. Quer táxi? Não quer táxi? Que cara é essa? Cuidado!

Louca, joga o telefone no chão, bate no aparelho com força e precisão – como se aquele fosse um vilão até então bem sucedido. Bate em todos os telefones, esses putos. Puxa um por um, uma festa em fios, antenas e pequenos circuitos estraçalhados.

Ao final, exausta, senta-se no sofá e pede que lhe fechem as portas. Acabou o espetáculo. Está só, sem liquidificador, sem celular, sem sapatos. Verifica, maravilhada, a falência do ambiente. Afinal, era isso que desejava o tempo todo. O silêncio lhe abraça os nervos. Os batimentos ficam menos coronários. As paredes tão brancas, meu bem…

 

Amor-próprio

Ela lê para as crianças do colégio uma adaptação ilustrada de Romeu e Julieta. Professora aplicada, pensa que o drama entre Montecchios e Capuletos não é adequado para o ensino fundamental. O que é o suicídio, professora? Nem ela sabe. Ri. Não é nada demais, crianças. Um dos elementos essenciais do mote ficará sem explicação. O enredo não é infantil, já tinha dito perante o conselho.

Em casa, a professora se olha nua no espelho. É feia. Nunca teve ninguém. Das poucas investidas que recebeu lembra ter se defendido com as mãos no rosto, envergonhada. Ás vezes, sente-se Julieta, criança apaixonada do enredo não-infantil. Romeu não vem. Seu pai violento não existe. Apenas se sente bloqueada para o amor pela feiúra do seu corpo oleoso e disforme.

Veste-se resignada com as suas conclusões. Sai, mas antes passa perfume. Perfume bom. Compra flores e manda para si, meio sem se entender. Convida-se para jantar. Aceita. Prepara um banquete caprichado. Come com gosto. Pergunta-se se está bom. Está uma delícia. Levanta e põe música. Vai deitar. Antes, tira o vestido com violência. Fica só consigo.

Os dias passam e ela permanece encantada por si. Não quer saber de dieta, limpeza de pele, academia, depilação, a bobagem toda. Acha que não precisa mudar nada em si. Imagina que pode perder a graça, sabe lá. Deixa bilhetes apaixonados pela casa, pergunta como foi o dia, assiste filme romântico. E dorme só, confortável.

Um dia o aluguel aumenta, a inflação não perdoa. É o final do ano chegando. Precisa levantar fundos para um natal repleto e satisfeito junto a si mesma. Pega turno dobrado. Arruma bico numa loja. Chega definhando de cansaço e não se cuida mais. Fica enciumada, cobra-se mais tempo. Falta pouco, meu bem. Mas os conselhos escolares não dão trégua. A loja está movimentada. Cliente reclamou. Ai, a úlcera.

A primeira briga. O que você está fazendo comigo? Não me ama mais? Para apaziguar, dá-se presentes e mimos. Sem confiança em si própria, ela pergunta

Pra quem é esse batom que você passou?

É para você.

Não acredito, já disse que você não precisa, que você é linda.

Juro, amor, só tenho a você. Como pode duvidar tanto de si mesma?

Prove.

Espere.

No dia 24 de dezembro, ela celebra o natal e dois meses de amor-próprio. Sai da loja às oito da noite. Direto para a ceia que lhe aguarda. Na sala, frente ao espelho, sorri. Em seguida fecha a cara. Achei que não fosse chegar. Mas eu vim. Vou lhe dar a prova que tanto quer. Tranca-se no banheiro. Você já devia saber – diz pausadamente – durante esses meses que se eu não for sua eternamente… eu não serei de mais ninguém. Olha-se novamente, agora em outro espelho e estoura a cara.

 


A Tenista

Joga tênis desde os sete. Não gosta que lhe vejam jogando. Sabe que é boa demais para as mesquinharias da competição. Pára de competir aos dezoito. É meio avessa à torcida, bandeirinhas, à coisa toda.

É misericordiosa demais com os adversários, ora perde por respeito e admiração, ora por pena ou compaixão. Regozija-se em ver o rosto de triunfo em seus oponentes. Dificulta-lhes a vitória até o último minuto. Dosa a perfeição técnica com erros sutis, mas permanece arrancando séries de pontos durante a partida para que a glória do outro venha feito apoteose merecida. O maior prazer que tem é em ensinar.

Em dias de treino com seus alunos se veste com os melhores uniformes. Estes manufaturados por ela mesma, nos momentos em que não pratica o esporte. São tão perfeitos que possui até encomenda. Faz a endumentária com todo o coração, não cobra nada de seus pupilos, não aceita pagamento, dá de presente. Em dias de estréia de algum aluno recente, capitaneia cuidadodamente os preparativos, ajeita faixa, convida os pais, faz tudo com muito amor. Adora ao esporte, aos seus alunos. Detesta a derrota, não a deseja a ninguém e sempre que pode jogar seus esporte favorito – o tênis de mesa – faz questão de perder, até rouba quando a derrota lhe vêm suada. Chega a se acusar, xinga o juiz, vai expulsa.

Antes de tudo, considera-se uma torcedora. Começa a treinar um garotinho de sete anos, deficiente auditivo. É claro que você pode jogar, você tem boa visão e intuição, é um talento nato, o mais importante de tudo. Aprendeu a linguagem dos gestos para melhor orientar seu aluno favorito.

Eis que, tal qual sua treinadora, o menino não suporta ver a derrota no rosto alheio. Decide que não vai mais ganhar. O menino é muito bom para as mesquinharias da competição. Dosa a perfeição técnica com erros sutis, mas arranca pontos durante a partida para que a derrota não lhe venha rápida e fácil. Enfim, propõe um desafio

Quero jogar com você.

Apesar de contrariada, a professora marca a partida num horário e lugar reservado apenas para os dois. A treinadora tem dificuldade em perder para o aluno, as estratégias são iguais, o momento de errar vem semelhante para os dois.

O jogo está empatado. É a disputa do último ponto. Ambos cansados. O saque é do aluno. Ela rebate tirando forças da alma. O menino, que devolve, parece também ter usado a alma como fonte de energia. A bola pára no ar e logo em seguida some, para cima. Diante do ocorrido, petrificados, os dois estancam no lugar. Miram a si próprios. Estão sumindo também.

Dizem alguns que os dois só podem ser vistos no céu.

 

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No Aeroporto (Parte Final)

Euzinha, Natalia, já posso me considerar um GURU no quisito operações aeroportuárias.

Passageiros invadem pista de aeroporto

Agência Estado – Sex, 09 Fev, 07h30 Levados do Aeroporto de Congonhas, para o de Guarulhos, em São Paulo, com a promessa de embarcar imediatamente, passageiros foram levados para uma sala apertada e um segurança tentou trancá-los no local.

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No aeroporto (parte III)

Então, falávamos dos jornalistas. Esses famigerados passavam o dia a coletar depoimentos e a tirar retratos, mas depois de um tempo nessa lida as poses desconcertantes ficaram chatas e meio óbvias. Entregavam aos confinados do saguão exemplares das revistas e jornais para os quais trabalhavam. Às vezes davam exemplares da empresa concorrente só de maldade. Isto acelerou a estafa mental daquela gente que já passava dois terços do dia lendo revistas de atualidades. Era muito difícil travar uma conversa, pois todos estavam a par das mesmas coisas. Leu na Veja, é? Azar: eu li também. E se abraçavam.

Todos já se conheciam suficientemente bem. Certa noite um engenheiro sanitário aposentado levantou e propôs uma reunião. Os adultos acataram. Nesse meeting ficou acertado o seguinte: uma vez por semana eles iriam ritualizar atitudes desesperadas para chamar a atenção do governo e da sociedade. Um artista propôs que poderiam, tipo assim, fazer uniformes de jornal (com tudo: chapéu, espada…), ocuparem as janelas de vidro fazendo gestos expansivos e criativos como…, como…, como os de quem, meu-deus? Ah sim, os de Luke Skywalker vs Darth Vader. Ah não, por que a gente não imita então o super-homem? Pelo menos ele voava. Ai, que absurdo. Eu não vou imitar ninguém. Começou uma dispersão. O eng. sanit. saiu correndo de um lado para o outro cercando os desistentes. Ei ei ei, gente, olha pra cá, não é nada disso, eu tava pensando em agirmos como os operadores da bolsa de valores. Ninguém imaginou nada mais histérico. Assim ficou.  

(trabalha, desgraçada)

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No aeroporto (parte II)

Quando se deram conta, já tinham passado dois meses. Aquele saguão virara um condomínio assim organizado: Algumas cadeiras de acrílico estavam sendo usadas como cama, mesa de centro,  vaso de flores e, ocasionalmente, como assento; muitas pessoas ficaram doentes da coluna e da cabeça. A senhora que oferecera água e lera um trecho de ‘Meu amor, meu hambúrguer’ estava agora fazendo as necessidades fisiológicas nas calças. Em retribuição ao acolhimento no começo, a recém-casada (esposa) limpava as excretas da velhinha. As duas não se abraçaram nunca mais. Mesmo assim dividiam um frango, que mais se assemelhava a um pinto em tamanho, durante os almoços. O marido estava fechando contrato com a Rede Record para trabalhar em um programa de auditório que será exibido nas madrugadas de terça feira. Ele deverá interpretar o homem mais aborrecido do Vale do Paraíba. Assine aqui. Sabe, já estou cansando desse aeroporto, não vejo minha mulher desde o casamento, vocês bem que poderiam nos hospedar melhor aqui perto. Faremos o possível, entraremos em contato e não se esqueça de ensaiar.

O cowboy ligou para a mãe. A senhora também está presa num aeroporto? Enquanto falava no telefone, brincava de afiar as esporas na parede. Não, mamãe, eu não vou chegar cedo. Não, mamãe, não, pare com isso, já chega, ta bem? Não é nada disso, mamãe, eu amo a senhora. O que tem o pônei?

Não era mais possível entrar nem sair desse saguão. Os repórteres ficavam de fora e revezavam os horários para poder prestar a maior cobertura possível àqueles passageiros a espera de um avião.

(continua)

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No aeroporto (parte I)

Aquilo definitivamente era o purgatório. Seis horas de espera por um avião. Cinco horas de espera por uma explicação. No total, onze. E eles lá, recém-casados. A noiva magnífica de algumas horas atrás era agora algo se desmanchando numa cadeira dura de acrílico. O noivo magnífico era apenas mais um entre a massa enlouquecida que já falava em quebrar vitrines, tocar fogo no balcão de informações e assim por diante. O telefone do balcão toca. Faz-se um silêncio. Sim, certo. Vai sair um avião. O corre-corre aumenta. Começa um choro estridente de criança entre pessoas e malas. Uma Hello Kitty novinha estava sendo pisoteada neste momento por um cowboy de Barretos. A menina se contorcia por inteiro e os pais suavam tanto que não conseguiram olhar os horários no painel. O recém-casado intervém. Afinal, o que o cowboy queria com a Hello Kitty? Não, não queria nada. Nem viu a hora em que a boneca, ou melhor, em que o bicho, hm, em que o sei-lá-o-que cruzou a sua frente. O recém-casado levantou H.K. bem alto, subiu em cima da cadeira de acrílico e bradou: ISTO É O MAL DO QUAL A SOCIEDADE PADECE. Houve uma grande dúvida da platéia se desviava o olhar do painel para acompanhar o modo mais ou menos esquizofrênico com o qual a boneca pisoteada estava sendo referendada. O recém-casado resolveu fazer um estandarte amarrando H.K. na ponta de uma vara de pescar, presente do sogro. A esposa, que antes era algo caindo da cadeira, caiu. A criança já estava até bem calma quando viu seu precioso objeto como flâmula dos maus-tratos aeroportuários no Brasil. Um repórter se aproximou da celeuma e perguntou o que estava acontecendo. A cara paranóica do recém-casado instigou o público de casa que acompanhava o caso através do Plantão de Notícias. Cadê o cowboy? Que cowboy? Como assim? Ninguém viu nenhum cowboy, senhor. Começa um choro estridente de uma criança entre pessoas e malas. O cowboy estava lá. O recém-casado empunha a vara de pescar como uma arma medieval e corre até a origem do choro. Uma barbie decapitada foi encontrada junto às esporas e às botas de couro do rei do gado. O recém-casado-sem-núpcias se aproxima do serial-toy-killer. O que é agora? Agora você pisou numa…Não pisei em nada, só estou esperando um bilhete novo para me livrar dessa situação, e de pessoas como você. O cowboy dá um suspiro como quem quer dizer que prefere os animais, os prados e os lagos artificiais a seres humanos. Tira um retrato de dentro da carteira. Tratava-se de um pônei recentemente escovado. É o meu neném, estou indo buscar.

Uma senhora oferece água à esposa. Acho que o vôo dos pombinhos já é o próximo. As duas se abraçam. Seu marido é um homem corajoso. Meu marido? Sim, eu vi a maneira como ele falou para a multidão e veja, a imprensa não o deixa mais em paz. Meu marido? Sim. Onde ele está? Elas o viram longe, ele estava cercado e, portanto, só aparecia a ponta do cabelo.

A esposa buscou algo dentro da sacola de mão. Tinha um exemplar de ‘Meu amor, meu hambúrguer’ de Amanda Roberts. Explicou à velha que sua vida estava toda naquele livro. Todos os personagens, exceto crianças e animais, trabalhavam numa lanchonete e estavam divorciados. Resolveu ler um trecho enquanto aguardava o avião para sua lua-de-mel. Betty, a sócia minoritária da lanchonete teve um AVC minutos antes de fechar a questão da pensão alimentícia com o ex-marido. Betty estava levando o volvo para lavar. O carro se chocou com a limusine de Mariah Carey. Não tiveram sobreviventes.

(continua)

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