Interpol

Interpol é tão bom que, mesmo nos meus dias mais felizes, se tocar Interpol, logo dá vontade de por um preto/cinza, torcer pra chover e começar cantar no tom da voz podre de Paul Banks.

Para quem está acostumado a doses cavalares desse tipo de música, sabe, que mesmo que os momentos ensolarados da vida estejam ali, na cara, a vontade de ficar debaixo do cobertor curtindo um escurinho ainda é maior do que vestir bikini e ir para a praia. É basicamente a diferença entre o ventre materno e a hostilidade do exterior depois que se nasce. Assim eu resolvi escrever a minha experiência com Interpol. Eles foram lançados em 1998 em NY, com Obstacle 1, o primeiro single do grupo, mas só passei a conhecê-los em 2002, quando foi lançado “Turn on the bright lights”, o primeiro álbum. Eu, que já gostava bastante de Joy Division e o punk de Manchester, Bauhaus, The Cure, The Smiths, Echo and The Bunnymen, comecei de imediato a prestar atenção nas formas que o Interpol apresentava. A estrutura é simples, mas a gente vê que a trupe não está lá muito interessada em produzir virtuosidades. O humor (mood) é a arma principal para o post-punk revival. O foco é a melancolia. E por que exatamente eles estão melancólicos se nessas alturas não há mais Guerra Fria para se preocupar, se o momento histórico indica prosperidade, fartura, há a avalanche democrática? Porque existe uma escolha aí. Entre ser melancólico, uma condição relativamente suportável, e ser estressado, o verdadeiro mal do século XXI, que somado à alimentação tóxica da qual a gente se farta hoje, mata mais do que qualquer outra coisa no Ocidente. Nesse ponto, é melhor ser melancólico e vegetariano.

Sobre a música. Os acordes nunca parecem subir, eles só descem, a única rampa é quando entra uma batida ou outra, e mesmo assim, nada de planaltos, só planícies. É, eu sei, parece que estou falando de Joy Division. O que diferencia Interpol de Joy Division, a maior influência talvez, é que as mentes criativas são bem diferentes, afinal, não dá para prever o que Ian Curtis faria se não tivesse morrido com 23 anos e tão pouco comparar isso com os caminhos apresentados pelos tecnológicos meninos de New York, nessa altura dos anos 2000. Acho que os fãs reais de Joy Division me matariam se me visse dizendo que o Interpol pegou o fim da meada e continuou a fazer história. Mas é bem isso mesmo, repito, fazendo as ressalvas necessárias.

Sobre os álbuns. “Turn on the bright lights” parece ser o maior feito do Interpol, e eles não conseguiram e aparentemente não vão conseguir igualar. O CD é cheio de trunfos, surpresas, tem caos suficiente para alçar o voo, e o argumento necessário para credenciá-lo com a crítica e ganhar o público. É cheio de astúcia, uma astúcia inaugural, de quem não tem compromisso a não ser com a sua apresentação mais tarde no clube, bem pré-adolescente mesmo. É o portfólio da banda, por assim dizer, e para mim continua sendo o melhor. Não quero falar de nenhuma música em particular pois todas as onze são especiais e eu me demoraria muito na análise individual delas.

Em 2004 foi lançado o Antics, que também recebeu boas críticas porque realmente é bom. No entanto, falta um pouco do ímpeto, de irresponsabilidade apresentada no primeiro disco. As músicas Evil, Slow Hands e C’mere se destacaram, mas eu gostaria de chamar a atenção para o drama encapsulado em A Time to be so small, a música que finaliza o álbum e que eu acho parecer com uma dessas narrativas que se desfiam num curta metragem. Ouvi dizer que o processo de composição das músicas é bem democrático. Na medida em que a melodia vai sendo confeccionada por Fogarino, Dengler e Kessler, Banks, que acompanha tudo de perto, por sua vez, vai rascunhando a letra e o produto final é reunido e entregue às sucessivas melhorias. Parece ter acontecido isso com A Time to be so small, que tem a mesma idade das músicas do primeiro álbum, mas por um motivo muito particular, ela teve de esperar para que o seu debut acontecesse no segundo. A ela foi incorporada uma série de estratégias para que a sua sonoridade fosse compatível com a qualidade que se esperava de uma música do segundo, o curioso é que a letra permaneceu inalterada. Então está uma música amadurecida pela idade, o risco era que ela pudesse perder um pouco do viço, que acabou acontecendo.

Depois de ouvir “Our love to admire” de 2007, comecei a achar que o raciocínio foi o seguinte: aqueles nossos fãs de 1998 a 2004 já cresceram, arrumaram um emprego no serviço público, tiveram filhos, vamos fazer lançar um CD para eles, não rola mais ficar recorrendo àquela sujeirinha de 2002. E sem se descaracterizar tanto foi o que fizeram. Arrumaram um novo contrato, com a Capitol Records, e rechearam as músicas com tanta quinquilharia que era como se pegassem um punk e o dessem um banho de loja transformando-o num mauricinho perfumado, de rolex, topete à italiana, esperando a namorada, num iate. Eles precisaram ouvir um pouquinho de “This is a concecpt, this is a bracelet, this isn’t no intervention, this isn’t you yet, what you thought was such a conquest…” (Say hello to the angels – Faixa 5 de Turn on the bright lights). Enfim, é o que eu menos gosto, o que menos escuto, embora eu tenha feito questão de, na época eu morava em SP, ter ido à FNAC da Avenida Paulista, só para conseguir comprá-lo no mesmo mês do seu lançamento no Brasil. Sou apaixonada por Pace is the trick, a faixa de número 6, acho que ela recupera fortemente o engajamento com o mood e é esplêndida. Mas é só. Acho que essa iniciativa presente em “Our love to admire” poderia ter demorado mais alguns anos para acontecer, poderia ter sido depois da experimentação em “Interpol” de 2010.

O último CD tem alguns méritos que eu acho bom ressaltar: é Interpol back on track. Mesmo sem ser brilhante, longe disso, o novo álbum é apenas legal, se comparado com “Antics” e “Turn on the bright lights”. Não tem problema. É preciso experimentar, errar, calibrar, acertar, derrapar e acertar de novo. Não viver a vida adulta sem antes ter sido adolescente. Por experiência própria digo que esse caminho não presta. Além disso, uma banda de respeito precisa preservar o DNA da sua célula. O despertar dos membros do Interpol para essa questão faz de “Interpol” um elemento de aparente continuidade da jovialidade da banda, quando o importante era a simplicidade e a alma da banda era o artesanato da depressão em cada verso. Isso sim me anima e é o que me deixa muito na expectativa do que está por vir.

2 respostas para Interpol

  1. Natália,
    Não conheço a Interpol, o que não é nada difícil de acreditar vindo de uma pessoa que gostava de boys band (Gostava? Ainda gosta..), mas, como não achei o seu e-mail e como deixei o celular que tem o seu número anotado no Rio (estou em SP), aproveito este espaço para te desejar um feliz aniversário e que Deus a ilumine, guie e ampare pelas sendas dessa vida. Beijos da sua cunhadinha Fernanda.

  2. Natalinha, você é um grande acidente aéreo e isso é um respeitoso elogio.

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