Na zoologia, encontramos as espécies, dividias em sub-especies, e dentro de um quadro mais geral chamado família, e depois classe, assim por diante até os reinos. Para a natureza em si não se distingue exatamente a importância de cada um, ela ressalta que o conjunto sim traz o equilíbrio do todo. A cada um é atribuído um papel e a cada espécie subtraída é dirigido um olhar preocupado com o bioma que o cerca, pois certamente aquele que se foi fará falta. Com os seres humanos, caso especial, é o inverso. Os humanos se afastaram daquele modo natural de conceber a importância do todo, e passaram a ter – à guisa de argumentos contrários à saborosa lei do mais forte – um jeito mais econômico de valorizar as coisas, o particular. Quando a inteligência passa a ser ferramenta de sobrevivência, o homem vai se desconectando pouco a pouco do modo natural de ver as coisas e fica vaidoso. Hum. Agora que eu tenho a minha inteligência e outros atributos que também vão me projetar a alguma coisa especial vou usá-la e vencer. Vencer é questão, mas além de vencer, é preciso um pouquinho de audiência, senão não provocará a mesma sensação de vitória, cujo termômetro é a inveja dos vencidos.
As artes foram concebidas a muito tempo atrás, desde que o homem ainda era um bicho bruto, natural, mas cospia o suficiente para que o outro pudesse entender que uma palavra estava sendo emitida. De lá pra cá pouca coisa mudou com a utilidade da arte. A arte, na verdade, não tem uma utilidade específica. Ela pode encontrar um público específico pra qual aquela visão de mundo embutida num projeto a que se denomina arte faça sentido. Não é a mesma coisa a arte ser apreciada pela arte, do que os criadores da arte serem apreciados por um status.
Era então nas artes que eu estava mirando quando comecei a falar de zoologia. Na vaidade, pra dizer a verdade. A música, o cinema e a TV tem lá suas maneiras de explorar o campo da vaidade de forma livre e impune, as premiações. Não é que eu discorde de ter essas cerimônias de entrega de prêmios. Afinal, reconhecimento também é importante. Não para mim, nem para você diretamente. Mas para a indústria, que se beneficia da divulgação nos eventos para continuar a distribuição anual e levar milhões de fans às compras e poder gastar mais uns milhões com os seus produtos. Mas a coisa é 90% mercadológica e 10% meritológica, vê-se pelo Oscar. É ridículo o nível de vaidade nessas festas. Só no ocidente mesmo que se perpetua uma prática em que cinco mulheres são chamadas a um único prêmio de melhor atriz, por exemplo, daí na hora do pronunciamento da vencedora, cerca de 10 segundos antes, fazem um close da reação das cinco indicadas para que quatro delas, atitude obrigatória diante da derrota, sorriam e batam palmas para a vencedora, que vai lá fazer um discurso meio desmiolado e nervoso a respeito de nada de interessante. Você imagina fazerem a mesma coisa com um prêmio Nobel, que também é Ocidental, mas um pouco menos vexatório? “E aqui os cinco indicados para o prêmio Nobel da Paz este ano são: Barack Obama (close no Obama) , Nicolas Sarkozy (close), Hu Jia (close), Morgan Tsvangira (close), Piedad Córdoba (close)”. “E o prêmio vai para (suspense, abre o envelope)… Barack Obama! Sobe aqui, Barack.” E todo mundo naquela atitude obrigatória de congratulação e troca interminável de elogios. Eu me pergunto: por quê? Manda uma cartinha pro correio “você ganhou” e depois publica uma nota na imprensa falando, ó o fulano de tal é o melhor. O formato do Oscar é tosco demais para ser levado a sério. Eu mesma, antes de ficar ranzinza, achava o máximo o close na cara dos indicados. É o melhor da festa, né não? Aí vem um idiota aqui falar no microfone o que se esconde para baixo do tapete publicamente, mas que se fala absurdamente nos bastidores, e esse cara é um … feio.
Ele é mesmo.
Coz now we (hollywood producers) want round faced people, yeah, with croocked teeth, yeah, that’s the new good looking. – Ricky Gervais