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Sucesso 2

Qual é o maior problema em cometer erros, falhar, fracassar, ir mal, muito mal? Se ninguém visse o erro, ele poderia ter um efeito colateral muito menor, muito menos arrasador.  Mas não. O fracasso existe porque existe sucesso. Um depende do outro para existir, malignamente ou benignamente. Do mesmo jeito, ter sucesso sem platéia não pode ser considerado um sucesso social, talvez apenas pessoal, não é? Nunca vi um momento da história tão adicto à palavra sucesso. Logo, o fracasso nunca foi tão necessário. Para cada camarada que se dá bem, ele precisa que outros se dêem mal, talvez muitos outros, ou o que valorizaria ou qualificaria sua vitória? Sucesso remete a progresso, destaque. Evolução no sentido vertical e ascendente, e quanto mais íngreme melhor.

Na Idade Antiga e Média, tanto no Oriente como no Ocidente, as sociedades mais estudadas por historiadores demonstram ter em comum uma divisão muito rígida entre os bem e mal nascidos. E como faz pressupor, o indivíduo, a partir da sua família ou comunidade, por nascimento, já estava com sua vida traçada. Era uma questão de “fortuna”. Nesse tempo era difícil vislumbrar o que afinal era tão bom para os que tinham prestígio e tão ruim para os que não tinham. Os privilegiados prestigiavam a si e os desafortunados, seja pela mazela, fome ou frio conviviam com seus iguais e assim por diante. Nestes momentos, quando a questão da diferença vira movimento há colapso da ordem, mesmo que esta fosse apenas rudimentarmente traçada. Os desafortunados resolvem se levantar contra a escravidão, os impostos abusivos, a retenção de alimentos por um determinado segmento etc.

Já a sociedade das descobertas, da expansão, da ciência traz a montagem, na Europa ocidental que vamos entender o “Velho Continente”, de uma novidade para temperar a vida de quem se achava estagnado há gerações dentro da mesmice.  A possibilidade de mudança, de ter moedas para comprar prestígio, mulheres, posição. Sucesso¹. Mesmo que não tenha sido de uma hora para a outra da História, nasce aos poucos um novo homem: audaz, conquistador, “livre”, e com um mundo cheio de riquezas à sua frente, prontinho para ser desbravado, cutucado, esmiuçado, domesticado. A fábrica de sonhos promove um mutirão sem precedentes rumo ao Oriente, aos continentes virgens, aos pólos. Capitaneados pelo Estado a que se subordinavam, financiados por ricos, estes pobres se muniram de esperanças em ter uma vida que, sob um ponto de vista inegavelmente construído pela propaganda das Grandes Navegações, seria mil vezes melhor do que aquela porcaria daquela cabana velha e no frio. Um pouco ignorantes sobre a própria situação pela qual iriam passar ao partir de um ponto para outro, atravessando oceanos e terras desconhecidas, muitos terminavam sem ao menos terem começado a vida, náufragos, perdidos ou mortos.  Falharam, e talvez nem tiveram a consciência disso. Por outro lado, se perdidos do rumo, de que adiantaria acharem tesouros que não poderiam carregar ou gastar? Para os contemporâneos de Alexander Silkirk, o marinheiro escocês cujo relato inspirou o desenho do personagem Robinson Crusoé por Daniel Defoe, a grande cartada terá sido a sobrevivência por quatro anos numa ilha deserta e ter conseguido sair dela, não a reinvenção de um modo de vida original e solitário a partir de rudimentos de civilização humana que teria por única testemunha a própria consciência do marinheiro náufrago. Não adianta vencer sozinho. Não teria graça se Sirkilk não pudesse ter emergido e confeccionado o próprio relato.  É preciso vencer para mais alguém, para os fracassados. Triunfar. Nisso somos adictos. Justo ou não, acredito ser isso um dos sustentáculos mais sofisticados e antigos do nosso canibalismo atual.

¹Sucesso, segundo a etimologia do dicionário Houaiss de Língua Portuguesa, http://houaiss.uol.br, acesso em 28/05/2009., é datada do período entre 1563 e 1572, advinda do vocábulo latino successus,us ‘entrada, abertura; aproximação, chegada, vinda; bom resultado, bom êxito, bom sucesso’.

Arquivado como:Ensaios, Epifanias, Senta que lá vem História

3 Responses

  1. Rafael disse:

    Verdade, eu sempre gosto de vir aqui.

  2. Gustavo disse:

    É uma questão de contraste
    É preciso haver fracassados para os vencedores se destacarem
    E não me importo de ser um loser :)

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