Sou um cara ciumento. Não tem jeito. Já nasci com o gene do ciúme. Meu pai, minha mãe, o cachorro, tudo ciumento. Aprendi a escrever com seis anos, logo comecei a etiquetar tudo o que era meu. Porra, se é meu, vem outro pivete e bota a mão? Não! Biscoito, chaveiro, bola, cachorro, quarto, mãe. A mãe é minha; por sinal, ciúme latente. Do meu pai o ciúme é potencial – ainda está se desenvolvendo à medida que aquele secretário mané dele parece merecedor em substituí-lo na empresa.
Só que eu cresci. Tenho pêlo na cara. Como homem que sou, abandonei as etiquetas. Eu tenho trancas, são mais seguras. Gosto de trancar tudo. O poder de prender algo com o qual só eu tenho o segredo me ilumina. Porta, portão, grade, arame, chave, cofre. Já estava na hora de comprar os cadeados e …. (raciocício entrecortado por passagem de mulher bonita e perfumada).
- Valquíria!
- Como andas?
- Ah, estou pendurado em duas disciplinas. Você teria tempo livre para me dar uma ajuda?
- Como é que o sujeito mais inteligente dessa universidade fica pendurado em duas disciplinas?
-To meio burro então na matéria de elaborar desculpas esfarrapadas.
Assim começou o meu namoro. Valquíria, caloura, vinte anos, linda. Só em pensar que os outros também suspiravam por essa sequência de características, eu ficava doente. Encontrar com Valquíria introjetava na minha pobre cabeça uma dose dupla de nervosismo. O primeiro era a inegável ansiedade em ver minha namorada, que, vou repetir, era minha mesmo. O segundo era um puta medo de vê-la com outro no lugar.
Um dia fiquei cismado. Valquíria atrasou cinco minutos. O encontro era em um chafariz. Bem brega. A gente sempre se encontrava no chafariz às dezoito e trinta. Eu sempre chegava antes. Meia hora antes. Às vezes uma hora antes. Para ela não chegar antes de mim e ficar esperando. Também para ver como ela vinha, quem trazia. Sou um sujeito zeloso. Valquíria me olhou com carinho, mas antes que eu caísse nos olhos dela, eu fui obrigado a perguntar onde ela esteve e porque chegou tarde.
-Tarde? Cinco minutos.
-Em cinco minutos dá para fazer muita coisa. Vamos, onde você andou esse tempo todo.
Valquíria começou a azedar o namoro. Chegava tarde de propósito. Dois, três, às vezes atrevia chegar quatro minutos mais tarde. A minha pobre cabeça não controlava essa situação. Eu cada dia mais ciumento.
-Como é nome do cara?
-Que cara?
-Esse com quem você ta saindo.
-Ehin?
Valquíria tratava o meu ciúme com a mesma displicência que mãe distraída cuida de uma criança tola. Não demorava até que ela conseguisse me dobrar de forma superior. Eu é que não engolia totalmente a irritação. Era provocação demais para um sujeito como eu. Valquíria, caloura, vinte anos, linda. Solta? Com um monte de urubus ao redor. Aposto que eu lhe faria um favor se a trancasse. Ah ué, por que não? Tamanho favor. Ela não iria mais ter que lidar com assédio indesejado de ninguém e tampouco saberiam da existência dela.
Fiz os planos. Tramei tudo do início ao fim. Depois do final para o início. Vi que o fim justificava o meio. Guardei grana e esperei o ano terminar. Não foi uma espera fácil. Eu seguia Valquíria. Ela estava se escondendo muito bem com o outro namoradinho. Será que a mãe dela sabia? Mãe sempre sabe essas coisas. Mãe de mulher bonita é uma praga. Ela foi tão bonita quanto a filha é, na juventude. Fica cheia de opinião para cima dos pretendentes da filha. Se bem que a mãe da Valquíria é meio esquisita. Deve fazer tudo ao avesso. E a velha gosta de mim, ou faz que gosta. Não interessa. Eu penso o dia inteiro na Valquíria. Na mãe, no cachorro imbecil, no computador, na academia de ginástica, nos livros e apostilas que ela lê. Em tudo o que faz com que ela não pense em mim com a mesma intensidade em que eu penso nela.
Então coloquei meu plano em prática. Era simples. Com o meu negócio promissor em segurança, portas, portões, grade, cadeado, arame, eu já tinha juntado um bocado. Casei Valquíria. Fomos morar no interior. Faculdade? Transferi o negócio para lá, comecei a trabalhar com fazendeiros. Arrisquei. Passava apenas seis horas longe de casa. No restante do dia eu vigiava pessoalmente Valquíria. Essas seis horas longe… Valquíria tratava a minha preocupação com a mesma displicência que mãe distraída cuida de uma criança tola. Não demorava até que ela conseguisse me dobrar de forma superior.
Uma vez, ao chegar, flagrei-na calçando os chinelos para sair de casa. O que é isso?
-Aonde você vai? Posso ir junto?
-Pode! Vamos comprar figo?
-Nem sei onde tem isso.
Tive que dar uma volta absurda para achar nada. Minha sorte é que na fazenda de um dos meus clientes tinha um pouco congelado. Valquíria me perturbou nesse dia. Porra, figo? Se Valquíria estiver com desejo de gravidez porque justamente figo? Eu odeio figo. Será que o filho é meu?
-Valquíria, o filho é meu?
Valquíria deixou cair o figo da mão. Olhou com assombro para mim. Depois olhou para a barriga.
-Tomara que não.
Caiu na risada. Não parou de rir até hoje.
O sarcasmo de Valquíria é como uma porta rotatória. Ela me larga lá e gira na velocidade que mais interessa para ela. Meu esforço virou contra mim. Aflito, percebi que ela sim, entendeu um modo de me trancar. O maior antídoto dela pra neutralizar meu ciúme é reforçá-lo. Estimulando minha dúvida, me joga na fogueira, brinca com meu medo como ninguém. Diz coisas como: – Não quer sair comigo? Vou chamar o outro então. Em contrapartida, Valquíria é superior porque arca com as conseqüências das suas brincadeiras perigosas, como vir se enfiar no interior, passar a vida aqui, dependente de mim e independente do meu humor.
Sou um cara ciumento. Não tem jeito. Hoje é aniversário de um ano do meu garoto. E vou descer logo, porque Valquíria está bonita demais.
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Depois dizem que o homem é um ser superior. Não consegue nem controlar seus faniquitos…rsrs
Adorei!
Espero que renda, pelo menos, uma boa história.
Beijos.
“Depois dizem que o homem é um ser superior. Não consegue nem controlar seus faniquitos…rsrs”
maldita revolução sexual, isso sim..
Também gostei do seu blog, moça! E gostei dessa história…. que cara pirado… hehehe
Te espero no meu blog, sempre!
Espetacular a trajetória do sujeito ciumento demais. Melhor dizendo, dele não e sim deste desempenho literário cativante.
Cadinho RoCo
Ahhhhhh adorei tudo isso …Adorei !
Hoje em dia faltam homens como o de Valquíria. Tá mais do que certo. Não dá assistência, perde pra concorrência, já dizia o ditado.
Adorei o conto!