ou O Acidente Nacional
Num dia, espaço de tempo normalmente constituído de vinte e quatro horas em que a Terra leva para girar em torno do próprio eixo, milhões de pessoas, cuja unidade PESSOA é um ser, indivíduo a que se atribuem direitos e obrigações, tomam seus rumos a partir de sistemas de transporte coletivos chamados ônibus. Um ônibus normalmente possui um motorista dotado de capacidade específica atestada em carteira e um cobrador de bilhetes, situados em partes estratégicas do veículo, aguarando os usuários-PESSOA. Que ocuparão assentos e vagas para o transporte em PÉ, apoiados em canos ou esmagados entre os seus iguais. O esquema acima se repete em várias cidades do Brasil, uma república federativa de estupendos 26 estados e um Distrito Federal, 183.987.291 habitantes, área de 8.514.876,599 km², equivalente a 47% do território sul-americano. São 7400km de costa para o Oceano Atlântico e fronteira com quase todos os países da América do Sul, exceto Equador e Chile.
Diante de toda essa megalia nacional, mais uma vez o ônibus, parte integrante do sistema de transporte coletivo, conduz pessoas (sic) em processos rotineiros como: espera dilatada em muitos minutos, concorrência na entrada, pagamento do bilhete, passagem na catraca – a flor giratória da civilização ocidental depois da metralhadora e do helicóptero – , o arranque inicial, o deus-nos-acuda, o trajeto e a descida. Nem todos saem satisfeitos. Melhor dizer, nem todos saem insatisfeitos.
As empresas de transporte nem precisam gastar um centavo com publicidade Traga você e a sua família. A clientela é garantida. Eu mesma faço parte dessa clientela. E hoje foi dia de atravessar a cidade em que moro abusando dos processos rotineiros. Mal eu sabia, mas algo sairia do programado.
No início da minha penúltima corrida alertei o motorista, profissional dotado de capacidade específica atestada em carteira, que PRECISAVA descer na 41 – quadra situada entre a 31 e a 51 no endereçamento antigo, ou entre a 304 e a 504 Sul no endereçamento novo de Palmas. Ele acenou positivamente com a cabeça, mesmo confundindo o número novo com o antigo, com um outro mais antigo ainda. Quando me liberei da catraca, sentei. O ônibus não estava cheio nem vazio. Eu ficava trocando de lugares para fugir do SOL até conseguir me aquietar na sombra. Eis que surge uma família brasileira, pai, mãe e filho, experimentando o processo rotineiro da catraca, flor giratória da civilização ocidental atrás apenas da metralhadora e do helicóptero. A criança, um garotinho, foi a primeira a passar. O Brasil possuia, em 2005, 23.968.407 crianças de 0 a 6 anos, faixa etária do menino. Em 2010, estima-se que o Brasil vá ter 24.268.186 desses exemplares. A mãe ficou vasculhando uma bolsa grande e desorganizada em busca de dinheiro, riqueza, quantia, valor-moeda capaz de equivaler a uma passagem no sistema de transporte coletivo.
Senta, filho! Foi a ordem da mãe, fêmea que pariu e mulher que dispensa cuidados maternais, a que se atribui normalmente direitos e obrigações. A criança não sentou, óbvio. Estava muito ocupada primeiro em examinar o rosto de cada um dos passageiros, meio assustada com tudo. Passa um segundo, ou melhor, dois. A verdade é que depois ficou muito difícil determinar a quantidade exata de tempo entre o final da frase da mãe e o som de uma cabeça pequena tombando no chão. A cabeça é a parte superior do corpo humano, anterior ou superior em alguns animais e que contém o cérebro e os órgãos de função dos sentidos.
A minha estava funcionando perfeitamente naquela hora. Escutei a queda que aconteceu atrás de mim, enxerguei a agitação da fêmea genitora entre seu grito abafado, suor e pupilas dilatadas. O restante do meu sistema nervoso se encarregou para que a criança não fosse ejetada do sistema de transporte coletivo. Tudo em forma reflexo. Saltei e fui catar a criança no último degrau da escada, em que a terminação era a própria porta lateral do ônibus. Se o sistema nervoso do motorista falhasse em forma de burrice abrindo a porta, a criança teria um final bem triste. Nas minhas mãos, o garoto pesava menos que um floco de algodão. Chorava, coitadinho. O verdadeiro acidente, o nacional, é que os outros animais, cuja parte do corpo frontal ou dianteira ou superior teria sido paralisada pelo choque visual da cena, ocupou-se apenas de examinar uma das 24 milhões de crianças do Brasil que carecia de assistência imediata.
A criança em questão é um ser, indivíduo em formação - filho de alguém que procurava dinheiro, riqueza, moeda, numa bolsa grande e desorganizada, a que se atribuiu todo o direito de gritar, suar e dilatar a pupila em desespero – precisou e quase não teve ajuda num dos ônibus de uma estupenda república federativa com 26 estados e um Distrito Federal, 183.987.291 habitantes, área de 8.514.876,599 km², na qual o sistema de transporte carrega milhões de indivíduos a que se atribuem direitos e obrigações toda vez que a Terra resolve girar em torno do próprio eixo.
Obs.: Os dados sobre a infância constante no texto foram retirados diretamente da página do IBGE.
Segundo o IBGE, Palmas tem 178.386 habitantes. Se dentro de um coletivo, com uns 40 passageiros – 0,00022% da população – haviam 36 pessoas indiferentes a situação, o que dá 90% de indiferentes dentro do coletivo. Se excluirmos o menino e seus pais, são por volta de 36 indiferentes num universo de 37, ou 97%. Esses números não estão no site do IBGE. Se em Palmas é assim, em São Paulo ou no Rio onde a população é mais “civilizada” deve ser melhor.
Homem da minha vida,
melhor também deveria estar entre aspas.
Eu queria fazer um vídeo desse texto.
Não me incomodo que você suma inexplicavelmente enquanto continuar escrevendo assim. Saudade.
(ah, eu queria participar da direção do filme da Karla)
minhas as palavras do paulo. beijo.