GOMES, Laurentino. 1808: Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a história de Portugal e do Brasil. São Paulo: Ed. Planeta do Brasil, 2007.
Resenha (de 19/05/2008) :
Com excelente encadernação e estrutura, 1808 lembra os clássicos de Historiografia de capítulos segmentados com notas e referências a serem consultadas no final. Há também a reprodução de imagens do Rio de Janeiro, de escravos e dos costumes presentes n’algumas das preciosas pranchas do artista da época, Jean Baptiste Debret. Já o subtítulo “Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil” é a primeira característica marcante de um livro sobre História produzido por um não-historiador. Laurentino Gomes é jornalista, comunicador, ligado à revista Veja e à Ed. Abril, e embora esse livro seja uma aventura fora do seu eixo de trabalho, é inevitável ver, logo na capa, o anúncio de um comunicador interessado em vender sua idéia e empurrar o seu produto. Remonta a idéia das frases de efeito nos encartes dos filmes, feitas especialmente para atrair a atenção do público-consumidor.
Decidido a escrever para um público amplo, e que possivelmente ainda não leu nada a respeito da transumância da Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808 e/ou nem lembra mais da História transmitida nos bancos escolares, Laurentino inaugura seu texto com uma Linha do Tempo na qual confiei não haver nenhuma incorreção e sim mais um roteiro do que seria narrado ao longo das páginas subsequentes. O aspecto da obra de “fácil” leitura, por sua vez, não tira uma certa ambição do autor em cativar um possível historiador ou pesquisador do assunto, uma vez que ele demonstra suas fórmulas, digo, suas fontes e, para arremate, cita como cicerone dos primeiros tempos a historiadora Maria Odila Leite Dias, ninguém menos que uma das maiores estudiosas no Brasil do período Monárquico.
Dando seguimento à leitura, percebe-se o quanto o autor demonstra um profundo anseio em limpar uma parcela do escárnio que paira sobre a Família Real Portuguesa no início do século XIX; “devolver aos seus protagonistas a dimensão mais correta possível dos papeis que desempenharam duzentos anos atrás” (p. 20). Tanto o é, que se este livro fosse um romance certamente o escritor optaria por dar ao seu protagonista, o príncipe medroso, e à corte amalucada de Portugal um final feliz. Porém, preso à cadeira elétrica dos fatos, Laurentino é obrigado a narrar a transferência da corte conforme o que encontrou nos documentos sem conseguir transmutar seus personagens em cadeias de heróis e heroínas.
Devolver a dimensão mais correta possível é um afã balizado, na narrativa, em duas direções. A primeira é o uso da seqüência inequívoca Ameaça Napoleônica-Indecisão-Fuga-etc crivada dos detalhes referentes aos eventos políticos – às vezes numa perigosa relação de causas e efeitos . A segunda seria a apreciação crítica do papel dos personagens-condutores da trama.
No primeiro caso, o recheio inerente aos detalhes é fundamental a um livro que se presta a contar a Historia e apresentá-la a um público geral, como seria talvez necessário desenrolar e explicar fórmulas se fosse um livro de Física ou de Matemática. Por exemplo:“O resultado da combinação de má gestão das finanças públicas com a falta de liberdades individuais tinha sido a Revolução Francesa de 1789. O povo, incitado pela burguesia, ocupou as ruas, destronou a realeza e impantou um novo regime, até então desconhecido na História da humanidade, que pregava a justiça e a participação popular no governo sob o lema ‘Liberdade, Igualdade e Fraternidade’. O que ninguém poderia imaginar é que para implementar essas idéias seria preciso derramar muito sangue. Em pouco tempo, a Revolução fugiu do controle dos seus líderes e o terror se espalhava pela França. Em 1793, o rei Luiz XVI e a rainha Maria Antonieta foram decapitados na guilhotina. O caos tomou conta do país” (p. 40). É coisa que poucos historiadores se prontificam a fazer hoje, porque alguém já fez antes, ou por preguiça em promover macro explicações redundantes e às vezes lacunares, como haveria de ser, nos resultados das últimas pesquisas no assunto – sempre são muitos resultados, ainda mais quando o assunto é um verdadeiro hit, a exemplo da Revolução Francesa.
No segundo caso é que reside o maior problema, do ponto de vista da historiografia (embora, relembrando, trata-se de um livro-reportagem! Não de historiografia). Certas vezes, Laurentino atravessa observações das situações levado muito ao estilo Seria-melhor-se-fosse-assim-mas-foi-assado. Deixa entrever um certo resssentimento com o rumo dos acontecimentos, como se seus personagens estivessem presos à burrice e ele preso aos personagens. Suscita que Portugal teria chance de vencer numa luta gloriosa contra o exército enviado por Napoleão Bonaparte – que atravessou os Pirineus faminto e chegou maltrapilho à Portugal – uma inferência muito rica se estivesse sido completada com a teoria dos “exércitos imaginários” que exerciam todo um receio sobre os maiores generais de todos os tempos sendo esta uma das táticas de guerra mais antigas e mais bem sucedidas. Contudo, usou os dados de uma possível batalha somente para explicar a “fuga” da Corte pelo medo covarde de um combate frontal. Outra: a velha polêmica sobre a sugestão de uma incapacidade ibérica em acompanhar o desenvolvimento industrial de outras potências, o que o autor define por “atraso” de um “Império Decadente”(p. 56-57), entregue a um catolicismo lisérgico que atrofiava o desabrochar intelectual dos portugueses. Sobre esses julgamentos de valores em História, Paul Veyne é enfático “1°.) ‘O Historiador não tem que julgar’: É claro, por definição: a história consiste em dizer o que passou e não em julgar, muito platonicamente o que se passou é bem ou mal.(…) A coisa é tão evidente que, se encontrarmos num livro de História um desenvolvimento de elogio ou censura, nossos olhos saltam por cima;(…). Uma vez que a História se ocupa do que foi e não do que deveria ter sido, ela fica totalmente indiferente ao terrível problema dos julgamentos de valor”¹.
Julgar o que foi em 1808 é relativamente confortável na altura em que estamos em 2008. A uma boa distância dos acontecimentos e cientes dos resultados para a máquina econômica atual, é meio óbvio (e ao mesmo tempo não o é) dizer que Portugal não teve a predisposição necessária para se por à frente do processo produtivo lá no século XIX. Não o é, pois é preciso investigar a fundo as relações no seio da sociedade portuguesa sobre seus valores, costumes e a vida do homem comum no seu fazer-se cotidiano e dentro da sua mentalidade ao invés de emitir uma série de observações, muitas vezes superficiais, do que foram os elementos causadores – o também velho problema da causa e efeito em História – do ocaso do Império ultra-marino português. Aí é que se pergunta, já que Laurentino Gomes produz um livro-reportagem, sem pretensão de ser historiografia, teria ele licença para levar os acontecimentos históricos ao seu tribunal particular, como os jornalistas costumam fazer em seus livros sejam eles de quaisquer assuntos?
De todo, assumo particularmente que o livro 1808 é redondo, gostoso de ler e não aparenta possuir desvios factuais (para isso os jornalistas são espertos demais). Uma iniciativa feliz da Ed. Planeta em pô-lo a venda nas comemorações dos duzentos anos da transferência da Corte Portuguesa para o Brasil, já que não temos nenhuma efeméride que a relembre em calendário oficial. Foi, como diz o autor na sua chamada publicitária de capa, um evento que realmente mudou a História de Portugal e do Brasil.
¹ VEYNE, Paul. Como se escreve a história e Foucault revoluciona a História. 4ª. Ed. Brasília: Editora da UNB, 1998.
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[...] Um livro-reportagem: 1808, de Laurentino Gomes [...]
O livro também saiu aqui em Portugal. Estou a lê-lo e é muito bom. Deu direito a post no http://www.tapornumporco.blogspot.com e tudo. Passe lá…
Tapor