Tava sem nada pra fazer, eu os escrevi ontem a noite.
Quer agora
Passa os dias remoendo a sensação de que falta algo na vida. Neste instante, ela repuxa as mãos e esfrega os olhos. Uma necessidade que urge, não é sal no arroz, não é sorriso nos filhos, não é afetividade dos amigos, não é carinho do marido. Não é educação, música, perfume ou cor. Os dentes, tem a todos eles.
Não é dinheiro no banco, não é previdência, não é nada que possa ser comprado à vista, à prazo ou no consórcio. Sequer é caro. É algo que inveja em outros, inveja em segredo – segredo que o âmago não divide com ela própria – pois esse desejo latente não tem direção aparente. Não é emprego, nem saúde. Tampouco saúde para trabalhar. Esforçada, acorda assistida por afazeres, dorme pensando neles. O que falta, afinal? Ela se pergunta. Pergunta agora. Quer agora. É como aquele maldito último ítem do supermercado que escapa à memória.
Começa a se desesperar, pois pensa que vai morrer sem conseguir desfrutar desse misterioso componente que lhe figura vazio na imaginação. Tem ido ao terapeuta, ao casamento da filha, à casa do filho, ao encontro do marido, da prima, dos empregados. Sua vida transborda de gente. Mesmo assim, não acha, não vê. Perscruta, persegue, nervosa, corta dos dedos na louça que arrebenta na pia. Corta os cabelos.
Está bem? Está bem?
O que está acontecendo com você?
Precisamos ter uma corversa urgente.
Agenda, secretária eletrônica, celular, computador, todos os eletrodomésticos estão preocupados com ela. Anda de um lado pro outro, telefone numa mão, a cintura na outra. Berra, chora. Pede conselho, colo, cigarro.
É algum segredo do passado?
Talvez seja. Não lembra há quanto tempo sente isso. É anseio antigo, desejo que cresceu como um prédio paralelo à linha da própria vida. Está prestes a implodir. Não sabe mais a quem solicitar. À Deus? Vai a Igreja, crê na onisciência. Crê na luz. A Igreja está lotada de anseios antigos, não sobra lugar para sentar.
Volta para casa. Está na hora do terapeuta.
Quer carona?
Sim, está chovendo.
Lembrei que não abasteci o carro. Quer táxi? Não quer táxi? Que cara é essa? Cuidado!
Louca, joga o telefone no chão, bate no aparelho com força e precisão - como se aquele fosse um vilão até então bem sucedido. Bate em todos os telefones, esses putos. Puxa um por um, uma festa em fios, antenas e pequenos circuitos estraçalhados.
Ao final, exausta, senta-se no sofá e pede que lhe fechem as portas. Acabou o espetáculo. Está só, sem liquidificador, sem celular, sem sapatos. Verifica, maravilhada, a falência do ambiente. Afinal, era isso que desejava o tempo todo. O silêncio lhe abraça os nervos. Os batimentos ficam menos coronários. As paredes tão brancas, meu bem…
Amor-próprio
Ela lê para as crianças do colégio uma adaptação ilustrada de Romeu e Julieta. Professora aplicada, pensa que o drama entre Montecchios e Capuletos não é adequado para o ensino fundamental. O que é o suicídio, professora? Nem ela sabe. Ri. Não é nada demais, crianças. Um dos elementos essenciais do mote ficará sem explicação. O enredo não é infantil, já tinha dito perante o conselho.
Em casa, a professora se olha nua no espelho. É feia. Nunca teve ninguém. Das poucas investidas que recebeu lembra ter se defendido com as mãos no rosto, envergonhada. Ás vezes, sente-se Julieta, criança apaixonada do enredo não-infantil. Romeu não vem. Seu pai violento não existe. Apenas se sente bloqueada para o amor pela feiúra do seu corpo oleoso e disforme.
Veste-se resignada com as suas conclusões. Sai, mas antes passa perfume. Perfume bom. Compra flores e manda para si, meio sem se entender. Convida-se para jantar. Aceita. Prepara um banquete caprichado. Come com gosto. Pergunta-se se está bom. Está uma delícia. Levanta e põe música. Vai deitar. Antes, tira o vestido com violência. Fica só consigo.
Os dias passam e ela permanece encantada por si. Não quer saber de dieta, limpeza de pele, academia, depilação, a bobagem toda. Acha que não precisa mudar nada em si. Imagina que pode perder a graça, sabe lá. Deixa bilhetes apaixonados pela casa, pergunta como foi o dia, assiste filme romântico. E dorme só, confortável.
Um dia o aluguel aumenta, a inflação não perdoa. É o final do ano chegando. Precisa levantar fundos para um natal repleto e satisfeito junto a si mesma. Pega turno dobrado. Arruma bico numa loja. Chega definhando de cansaço e não se cuida mais. Fica enciumada, cobra-se mais tempo. Falta pouco, meu bem. Mas os conselhos escolares não dão trégua. A loja está movimentada. Cliente reclamou. Ai, a úlcera.
A primeira briga. O que você está fazendo comigo? Não me ama mais? Para apaziguar, dá-se presentes e mimos. Sem confiança em si própria, ela pergunta
Pra quem é esse batom que você passou?
É para você.
Não acredito, já disse que você não precisa, que você é linda.
Juro, amor, só tenho a você. Como pode duvidar tanto de si mesma?
Prove.
Espere.
No dia 24 de dezembro, ela celebra o natal e dois meses de amor-próprio. Sai da loja às oito da noite. Direto para a ceia que lhe aguarda. Na sala, frente ao espelho, sorri. Em seguida fecha a cara. Achei que não fosse chegar. Mas eu vim. Vou lhe dar a prova que tanto quer. Tranca-se no banheiro. Você já devia saber - diz pausadamente - durante esses meses que se eu não for sua eternamente… eu não serei de mais ninguém. Olha-se novamente, agora em outro espelho e estoura a cara.
A Tenista
Joga tênis desde os sete. Não gosta que lhe vejam jogando. Sabe que é boa demais para as mesquinharias da competição. Pára de competir aos dezoito. É meio avessa à torcida, bandeirinhas, à coisa toda.
É misericordiosa demais com os adversários, ora perde por respeito e admiração, ora por pena ou compaixão. Regozija-se em ver o rosto de triunfo em seus oponentes. Dificulta-lhes a vitória até o último minuto. Dosa a perfeição técnica com erros sutis, mas permanece arrancando séries de pontos durante a partida para que a glória do outro venha feito apoteose merecida. O maior prazer que tem é em ensinar.
Em dias de treino com seus alunos se veste com os melhores uniformes. Estes manufaturados por ela mesma, nos momentos em que não pratica o esporte. São tão perfeitos que possui até encomenda. Faz a endumentária com todo o coração, não cobra nada de seus pupilos, não aceita pagamento, dá de presente. Em dias de estréia de algum aluno recente, capitaneia cuidadodamente os preparativos, ajeita faixa, convida os pais, faz tudo com muito amor. Adora ao esporte, aos seus alunos. Detesta a derrota, não a deseja a ninguém e sempre que pode jogar seus esporte favorito – o tênis de mesa – faz questão de perder, até rouba quando a derrota lhe vêm suada. Chega a se acusar, xinga o juiz, vai expulsa.
Antes de tudo, considera-se uma torcedora. Começa a treinar um garotinho de sete anos, deficiente auditivo. É claro que você pode jogar, você tem boa visão e intuição, é um talento nato, o mais importante de tudo. Aprendeu a linguagem dos gestos para melhor orientar seu aluno favorito.
Eis que, tal qual sua treinadora, o menino não suporta ver a derrota no rosto alheio. Decide que não vai mais ganhar. O menino é muito bom para as mesquinharias da competição. Dosa a perfeição técnica com erros sutis, mas arranca pontos durante a partida para que a derrota não lhe venha rápida e fácil. Enfim, propõe um desafio
Quero jogar com você.
Apesar de contrariada, a professora marca a partida num horário e lugar reservado apenas para os dois. A treinadora tem dificuldade em perder para o aluno, as estratégias são iguais, o momento de errar vem semelhante para os dois.
O jogo está empatado. É a disputa do último ponto. Ambos cansados. O saque é do aluno. Ela rebate tirando forças da alma. O menino, que devolve, parece também ter usado a alma como fonte de energia. A bola pára no ar e logo em seguida some, para cima. Diante do ocorrido, petrificados, os dois estancam no lugar. Miram a si próprios. Estão sumindo também.
Dizem alguns que os dois só podem ser vistos no céu.