Quando Karl Marx disse que tudo o que é sólido desmancha no ar não se referia a aviões. Foi a metáfora mais feliz para definir ideologias, formas de governos e modos de produção que nasceram, vingaram e ruíram, como num ciclo de vida e morte quase natural. Imaginava que o capitalismo teria o mesmo fim, não derrotado por outro modelo – um antagonista econômico, mas findado por ele próprio.
Há subsídios, atualmente, indicando que o capitalismo tem forças não só para derrotar a si mesmo, como ao planeta inteiro. Como isso vai se suceder não tenho a mínima idéia, pode ser que o desmanche venha muito mais tarde do que se pensa. A minha falta de convicção na aposta marxista ainda para o século XXI me impede de fincar conjeturas às cegas. Facilitando: não tem fome na África, aquecimento global, cataclismas que me deixem minimamente desconfiada do fim do time is money social club. A moda, por exemplo, está lançando maneiras politicamente corretas de consumo, que não passam de desculpas para o consumo em si – é o caso daquele colar de fiapo de algodão biodegradável fabricado pelas rendeiras do Suriname que custa uma fortuna ou da bolsa de couro de milho ambientalmente certificado por apenas trinta e quatro instituições de proteção ao frio polar – tudo muito chique.
E a vanguarda financeira? A faixa etária dos 20 aos 45 anos empolada de globalização, tentando arrumar a melhor maneira possível de investir em bens líquidos, voláteis, brutos, móveis, imóveis, um vocabulário parecido com o daquelas aulas de química onde as substâncias sumiam e as moléculas pediam o máximo de abstração possível para serem localizadas. Um outro ponto muito forte da globalização, benéfico no microaspecto e duvidoso no macroaspecto, é a migração. É bem certo que as migrações sempre fizeram parte da História, lembro que diáspora é a principal prática hebraica quando as coisas apertaram em qualquer século, em qualquer lugar. Só que agora é assim: qualquer indivíduo pode pretender – o que não quer dizer realizar, ou realizar, sim, mas pela metade – no espaço de uma única vida morar em Nova Iorque, Londres, Tóquio, Berlim, Paris, Montreal, Amsterdã…
A velocidade com que se come distâncias seja de avião, ou por fibra ótica, é considerado um ganho individual e coletivo muito grande, mas até que ponto a ampliação das perspectivas e das necessidades, pressionada irresistivelmente pela propaganda, é uma motivação adequada para se levar a vida ou para se tomar importantes decisões políticas? Os chineses que o digam – a economia deles precisa esquentar também por mecanismo interno de consumo, o que para eles é uma novidade, uma sociedade que há apenas vinte anos atrás só era permitido ter o que comer, vestir e parcos meios de produção artesanal. Desejar o básico fica cada vez mais complicado, pois o básico anda com fronteiras bem movediças. E ainda que não pareça, não estou ansiosa pelo final de tudo isso, como quem esfrega as mãos, feito a Cruela Cruel dos desenhos Disney. É que ao lembrar das palavras do velho Marx, eu percebo que o que tem se desmanchado tristemente no ar não é o fator mais equivocado dentro da equação capitalista; deveria ser, e não é, outro.
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what this?
o que? o que?
O que é o que não pode ser que é o que não pode ser que é. Pode ser, é, pode ser, pode ser, pode ser.
Acho que era assim que os Titãs cantavam em 198…. E hoje vc me vem traduzir a letra dessas forma? Adorei, achei que ia morrer e nunca iria entender o que eles queriam dizer, mas vc conseguiu traduzir essa charada! Magnifico, estupendo. Acho.., acho…, acho que vou chorar: huajksmckskcmiosmcs ck.
Brilhante texto!
Adorei o texto, parabéns! Já leu “Tudo o que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade”, de Marshall bermen?
Aristóteles já dizia que tudo carrega dentro de si o princípio da própria contradição. Assim, um dia ainda há de ruir por completo o atual modelo, que massacra, exclui e volatiliza as pessoas de classe social baixa.
Belo artigo.
Abraço.