1 – A Faculdade
Não é por mera curiosidade ou distração que quarenta e cinco pessoas ingressam anualmente no curso de História da UFPa. “Vencer na vida”, “entrar para o mercado”, “conquistar espaços” também nem lhes passa pela cabeça. Quase sempre terminam o curso na corda bamba entre a academia e a sala de aula. Nunca sabem exatamente se estão estudando o presente ou o passado. A maioria relata já ter ouvido vozes. A maioria confessa que entre estudar muitas horas seguidas e não estudar nada dá no mesmo. Alguns não conseguem manusear um lápis 2B. De cada dez alunos, pelo menos um já admite ter reprovado em testes psicotécnicos. De cada cinco alunos, três, quando fecham o olho, enxergam a famosa insígnia de Che Guevara. As monografias são individuais. E perigosas, pois fazem chama verde.
2 – O Papel Social
O Historiador passa sua formação inteira se convencendo de que ele TEM que fazer alguma coisa pela humanidade. Daí são horas ao se imaginar conduzindo multidões rumo à luta de classes. Alguns são mais resumidos e apenas trocam o sapato de couro pelo sintético. Como se já não fosse suficiente, o Historiador deseja pagar as faturas do carnê bancário. Então, ele TEM mesmo é que trabalhar.
3 – O Trabalho (1)
Os professores de História se contentam em serem os mais amados para a galerinha do cursinho. Os professores de História podem ser os mais boçais para a galerinha do cursinho. Os professores de História não gostam dos livros de História, os didáticos. E por não gostarem dos livros didáticos, elaboram apostilas. Os alunos de História não gostam das apostilas e preferem os livros de História, os didáticos. Os professores de História não são didáticos.Os professores de História odeiam água natural, ventilador e máquina de xerox. Os professores de História adoram café, ar-condicionado e estagiárias. Os professores de História odeiam professores de História. E odeiam mais os pesquisadores. Os professores de História são pesquisadores e não fazem mais do que a própria obrigação.
4 – O Trabalho (2)
Os acadêmicos em História são como andorinhas de verão voando em V, congruentes.
5 – O Calabouço Teórico
Um dia ele vai te pegar, Historiador! Com o Boom de livros, minisséries e filmes com temas históricos, o Historiador se vê às voltas com perguntas célebres como “Elvis morreu?”, “Hitler era gay?”, “Quem era esse tal de Galvez?” ou nem tão célebres como “Quando Heliogálabo nasceu?”. Um alerta curioso aos curiosos: o Historiador é um ser confuso e qualquer informação por ele gerada poderá ser refutada. Caso ninguém faça imediatamente, ele mesmo fará, quando passar a ressaca.
6 – História é Literatura (e vice-versa)
Eu poderia citar um zilhão de exemplos. O que mais me apetece é o fato de que onde se encerra o estruturalismo de Foucault é, então, o começo do anedotário de Kurt Vonnegut.
O segredo da loucura, em um parágrafo:“A insanidade incipiente de Dwayne* era, claro, principalmente uma questão de elementos químicos. O Corpo de Dwayne Hoover estava produzindo certos elementos químicos que desequibravam sua mente. Mas Dwayne, como todos os lunáticos novatos, também precisavam de algumas idéias ruins para que sua loucura pudesse ter forma e direção” (Vonnegut, Breakfast Of Champions, 1973)
7 – História das Religiões
A Enciclopédia Britânica lançou, em 1974, uma edição de luxo da Bíblia Sagrada. Logo na folha de rosto, os diretores esclarecem: todo o material reproduzido ali está sob o Copyright BARSA, à exceção dos Salmos para o qual foi usada uma versão portuguesa do R. Pe. Leonel Franca por permissão especial do Provincial da Companhia de Jesus no Brasil, central a quem pertencem todos os direitos. Também constam imagens. Muitas. Todas de Copyright da Catholic Press. BARSA, Provincial da Companhia de Jesus e Catholic Press. Todo mundo revestido de Copyright para textos de propriedade intelectual do Espírito Santo. Que já teve muita briga por conta disso eu sei. Tanto é que essas Bíblias foram sacrificadas por pragas vindas do céu, como a umidade e as traças, que no caso do meu exemplar, já comeram todo o Pentateuco.
8 – O Reconhecimento
E. P Thompson já tinha escrito a Formação da Classe Operária Inglesa na década de 60 quando os olhos do mundo se voltaram para a iminência de uma guerra nuclear. Ao militar contra a Era Reagan e ao mesmo tempo romper com o marxismo ortodoxo, Thompson deu nó em trilho. Brincalhão, ele saiu fora do Partido Comunista Inglês e fundou um grupo de discussões que resultou na comunidade Historiador não entende piada. Ouvi dizer que para fugir do assédio se mudou da casa número 20 para a 22. Também que seu temperamento está exposto no Museu de Arte Contemporânea de Londres.
9 – O Prestígio
Tem historiador que é celebridade. Não há mal nenhum nisso.Em fulgurante palestra, realizada em 2004, o auditório do Colégio Rego Barros ficou realmente apinhado para ver a napoleônica interpretação de O Vermelho e o Negro de Sthendal. Todos queriam ver de perto o palestrante, autor de O Queijo e os Vermes. Carlo Ginsburg usava uma pronúncia familiar a poucos. Não era de bom alvitre piscar ou olhar para os lados. E quando foi possível entender algumas das suas frases, aí sim, todos se olhavam, lívidos, como se tivesse saído um gol.
10 – A Aposentadoria
O Historiador apresenta um, digamos, metabolismo mal acabado desde a mais tenra idade. Mas é no crepúsculo da profissão que conquista o direito e o dever para com as sessões noturnas, diabólicas por excelência, regadas a monografias criptografadas, analgésicos com café preto e cigarro.
*Se você é historiador e tem alguma reclamação, entre em contato com a central através do e-mail nataliabrabo@yahoo.com.br. Nunca respondi e nem vou responder em horário de almoço. Beiju.
Arquivado como:Epifanias , Dez Motivos, Futuro, Historiador, Passado
adorei.
acho que farei pra administração e computação também, se vc permitir.
é uma boa interpretação, tem sentimento. Recentemente, fazendo uma oficina na Casa da Linguagem sobre literatura, cai na besteira de me apresentar como um historiador, em meio a professores de portugues, pedagogos. Me dei mal, o palestrante, entre uma colocação e outra, começou a brincar: “o que o nosso historiador acha”, “é verdade?”, “aconteceu?”. E ai todo mundo me olhava, como quem olha para algum nerd. Tentei disfarçar: “Hã?” (olhando para os lados e ficando em silêncio). Deu certo, escapei por pouco.
Olha, pelo que eu saiba, a casa da linguagem é perto da minha, porque tu não viste te aconselhar comigo primeiro?
Não é tão ruim assim, menina…claro que estudar a hermenêutica dos gases nobres é muito mais divertido…
fui e voltei. mas pra você que está indo (ou já foi?), desejo uma aprazível viagem e uma boa sorte com os aeroportos e os restos todos (-;
Convivo com muitos historiadores e posso atestar que esse documento é absolutamente preciso.
Oi vizinha, obrigada! e quanto ao teu texto, amei! acho que se não fizesse jornalismo ia fazer história, é uma coisa que eu gosto muito, muito!
beijos.
lembro que seu aniversário é antes do aniversário do doda, portanto, feliz aniversário, atrasado, mas feliz.
beijocas
nossos blogs são primos, são tão parecidos, deve existir algum parentesco distante.
quanto aos historiadores, bem, prefiro não opinar. bjs, natalhona!
História é um curso legal, mas o voto de pobreza que eu fiz é o curso de jornalismo mesmo.
Este é meu blog novo. Já adicionei o teu aqui, atualize o seu aí.
Beijo
Hello
Great book. I just want to say what a fantastic thing you are doing! Good luck!
Bye
feliz de encontrar historiadores blogueiros com alguma crise de consciência sobre seu papel no encaminhamento da humanidade, q segundo creio, continuará caminhando depois de nós, pq caminhava já há bastante tempo antes de nós duas.
então, q faremos nós?
:/
Natália,
teu humor é impressionante. Deves ser uma personagem unique.
Gostei dos textos e vou ficar a espera de mais.
Boa sorte!
Bju
Olha…
tudo isso foi de uma profundidade tremenda…
gostei dos seus pontos de vista, e cursando segundo período de História, posso enender o q passa na sua cabeça (ou não, a final, historiador é sempre inesperado).
As dificuldades são tremendas, e todo o sentimento de mudança, acaba se esvaindo, e se desprendendo de nossas vidas, a não ser que sejamos diferentes de todos os professores de História que conheço! O comodismo intrínseco à maioria dos seres humano acaba nos pegando. Nem sempre para o trabalho, nem sempre para a família, mas para as “lutas de classe” ou “lutas contra a alienação” acabamos sempre cedendo!!!
vc é da história ou da ciencias sociais…que historiador vc conhece…por aqui a gente nem passa perto desses relatos… tirando o primeiro q cai como uma luva o resto são bastante estranhos
Denise,
Eu estou nas forças armadas.
Beijos.
Bom dia Natália,
sou do portal futuro e gostaria de colocar algumas informações citadas a cima no meu texto, creditando-as a você junto ao link de seu blog.
Aguardo resposta,
Raissa Rossini_Portal Futuro
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