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D. Fuas Roupinho (o Fuinha), o veado nervoso e a origem lendária do Círio de Nazaré*

A idéia de se fazerem procissões até locais onde acreditam ter havido milagres é parte do erário medievo-cultural português que atravessou o Atlântico e veio ser enterrado, na base do porrete (50%) e da conversa mole (50%), aqui na América. Sendo assim, tive a pífia idéia de aprontar uma estorinha na qual, não sei bem o fundo de verdade histórica, está presente o suposto patrono da procissão à Virgem de Nazaré lá no reino de Algarves.

D. Fuas Roupinho era um nobre português da mais alta estirpe, também companheiro de armas do rei Afonso Henriques lá por volta de 1179 d.C., pavor dos sarracenos, mico leão dourado das donzelas, prodígio na caça ao veado e devoto de Nsa. Sra. de Nazaré. D. Fuas encontrou a imagem da Santa dentro de uma lapa construída antes da tomada da Península Ibérica pelos mouros. Entre uma participação especial na Guerra da Reconquista e um encontro dionisíaco no palácio real, Roupinho se entregava ao prazer de uma boa caçada e de uma boa oração. Abatia veado melhor do que a donzelas. Essas andaram até reclamando da falta de espaço na agenda do astro. Carola, ele evocava o nome da Santa o tempo todo e não foi diferente quando lhe cruzou pelo caminho um veado fogoso com direção a um precipício. Fuinha, que não perdia essas oportunidades, saiu feito um corisco amalucado atrás da sua caça. Aquela era a do dia, pensou. Aliás, não sei se ele realmente pensou isso, mas que outra coisa poderia lhe passar pela cabeça naquele momento esvoaçante? A montaria do nosso cavaleiro, a excesso de pisa, também estava totalmente convertida à loucura e passou a galopar tão forte que era impossível lhe botar freios. E como eu disse anteriormente, o veado corria rumo ao segredo do abismo… ao aproximar-se do extremo do rochedo, Fuinha começou a suar frio, derreteu-lhe o pó de arroz, esgarçou a gola da camisa e começou a chorar por sua mãe. Não tendo resultados e à beira da morte, segurou o cavalo pela cabeça, na altura dos olhos, e gritou: “Ai minha nossa senhora de Nazaré, vós que sois o lírio mimoso, salva-me!”. O eqüino parou imediatamente no ar e voltou ao penhasco, executando uma manobra simiesca à la Missão Impossível. O cavaleiro ficou pasmo, o cavalo queria satisfações. O veado arisco, pivô de toda a problemática, sumiu no nevoeiro. Mistérios à parte, todo mundo estava com fome e voltaram trotando, sem caça e sem graça, pro castelo medieval, onde o modo de produção subjugava os servos a tributarem os melhore víveres ao senhor feudal, no caso Fuinha, o doce Fuinha. Estômago cheio e mentira na ponta da língua, essa história foi narrada com efeitos especiais de toda sorte. Dizem até que Roupinho soube arremedar a cara de medo do cavalo quando ia despencando do rochedo. A história do milagre se perpetuou, de fato, nas tradições locais portuguesas e justificou as várias procissões que fizeram ao terreno que Fuas cedeu à Virgem de Nazaré para a construção de uma igrejinha. Ficou conhecido o lugar como o dos milagres, e depois muitos milagres foram atribuídos ao local e à santa.

O Governado do Pará Souza Coutinho, entusiasta com o “aparecimento” da imagem da Santa à beira do Utinga no século XVIII, instituiu a feira que antecedeu à procissão hoje concebida, lembrando-se, claro, com história do nosso herói medievo que a santinha opera verdadeiros milagres.

* Espero que tenha ficado claro que esse post teve origem na minha caixola agora totalmente desorientada depois do traumatismo craniano que sofri ao me deitar numa rede mal atada e a muitos centímetros do chão. Eu me esborrachei e não teve milagre pra me poupar dessa. Mas prometi não lavar louça por cinco anos se a santinha interceder nas minhas próximas quedas. A meu favor.

Arquivado como:Senta que lá vem História

4 Responses

  1. Mayara Luma Maia disse:

    Oi Nathalia! Obrigada pela visita! Vim vistar o seu também e adorei o texto do Bernardo, muito engraçado! hahahahahaha. Sempre encontro ele lá por baixo, que fofura!

    um beijo.

  2. thfeijo disse:

    Mt interessante.
    Gostei.
    Voltarei.
    Até!

  3. [...] D. Fuas Roupinho (o Fuinha), o veado nervoso e a origem lendária do Círio de Nazaré* [...]

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