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Requiém para um sonho

Lucas assistiu a uma ópera chamada Mozart e Salieri e comenta. Leiam.

Eu, por minha vez, tinha imaginado uma versão do roteiro do Milos Forman em que Mozart troca de lugar com Salieri por um dia. Mesmo consciente de que ele é Mozart e Salieri está no seu corpo, Mozart ao tentar compor suas peças sofre do mesmo bloqueio que Salieri, este último com a visão até aquele momento turvada pela inveja. Mozart que nunca questionara o próprio talento passa a invejar o regozijante Salieri que aproveita o “freaky friday” do século XVIII para compor uma das obras mais famosas de Mozart, a Flauta Mágica.

Mozart (no corpo de Salieri), que não sabia de nada, nem mesmo da Flauta Mágica, procura a maçonaria, da qual era membro desde a morte do seu pai. A loja maçônica austríaca lhe recusa a cura alquímica, no entanto dá-lhe uma chance de provar que é o real Mozart. Este deve compor uma obra que eternize os signos maçônicos de forma meio velada, demonstrando, claro, o estilo e a qualidade do verdadeiro Mozart. Louco por uma solução, cansado de ter que cumprir os compromissos sexuais com a amante ridícula de Salieri, em uma madrugada atribulada, compõe a … Flauta Mágica! Cansado, vai dormir e deixa a luz acesa. Salieri (no corpo de Mozart), à espreita, rouba-lhe os originais e compara com a SUA. Eram idênticas. “Como??? Como ele conseguiu?? Ele está com o meu manejo, o inferior, o medíocre!” O enlouquecido Salieri sai pela madrugada e encontra um pântano onde ateia fogo nas mãos (que são as de Mozart). Eis que o feitiço se desfaz.

Mozart acorda aturdido e tostado no pântano. Salieri acorda em cima de papeis em branco, na saleta de composição. Mozart vai, de maneira trôpega, até Vienna. Descansa. À noite vai procurar o outro a fim de esclarecer a questão. Mas Salieri, paranóico de todo, já o esperava com uma arma. Os ânimos esquentam no momento em que Mozart passa da porta e encontra Salieri tomando leite. Mozart “Por que o leite? Você não vai se matar?”. Salieri “Não, eu só estava te esperando pra te matar”. Mozart “Então perdi a viagem”. Salieri “Como assim?”. Mozart “É que se você quer e pode, como estou vendo, acabar comigo, eu não precisarei mais de explicações sobre o dia que passou”. Salieri, ficando preocupado, “Você é louco? Cadê o teu medo?”. Mozart “Enquanto você queimava minhas mãos lá no pântano, e eu estava aqui ocupado em escrever uma peça para obter a cura de ’ser você’ eu cheguei a uma conclusão”. Salieri ansioso “Qual?”. Mozart “Se a cura da maçonaria desse errado, eu iria me matar. Ou melhor, te matar. Porque eu não agüentava ser você, é horrível viver as conseqüências da sua falta de paz de espírito”. Salieri se sente redimido. Mozart senta e espera. Salieri, já totalmente tantã, pega o violino e começa a tocar um concerto de Mozart. Este, entediado, aponta para a arma. O obediente Salieri pára o concerto de imediato e se encaminha para a mesinha onde a arma se encontrava largada. Dá uma gargalhada nervosa e, com os olhos cheios de fúria, a aponta para Mozart. Uma pausa. Duas pausas. E o tiro.

Muitos anos depois, um digníssimo réquiem é entoado para o funeral de Mozart. Na lápide, um epitáfio simples e direto:

“Aquela culpa, eu não tive”.

A clássica risada.

Fim.

Arquivado como:Ensaios

2 Responses

  1. lucas disse:

    Talvez mereça uma adaptação… e sem Russos dessa vez.

  2. não sei, só sei que puskin espalhou um boato que rende até hoje…

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